

Um Brilho de Esperana
Robin Jones Gunn
Serie Cris 6


    O novo ano escolar comea trazendo grandes novidades para Cris Miller. Alem de conseguir um emprego no shopping, ela v um antigo sonho se tornar realidade:
comea a namorar um cara super romntico que faz de tudo para agradar-lhe. Cris tem todos os motivos para ter nos olhos Um Brilho de Esperana 
Cris estava nas nuvens! Seu namorado parecia planejar tudo pra que cada encontro dos dois tivesse um sabor de aventura e demonstrasse o quanto ela era maravilhosa. 
E Cris sentia o mesmo em relao a ele. 
Mas nem a empolgao de Cris parecia ser suficiente para fazer com que as coisas sassem como ela gostaria. Seus pais resolveram limitar suas sadas de casa, e comearam 
a insistir para que ela conseguisse um emprego e ganhasse seu prprio dinheiro. Isso acaba influindo de maneira negativa no seu relacionamento com o rapaz, que comea 
e exigir mais tempo para eles passarem juntos. 
Ser que Cris e o namorado conseguiro acertar as diferenas? As regras criadas pelos pais dela vo conseguir atrapalhar o romance? Ela pode confiar no amor incondicional 
que ele demonstra e namorar firme, ou deve ouvir a opinio de Katie e ficar de olhos bem abertos? Ser que ela deve colocar toda a sua esperana nesse namoro, ou 
deve deposit-la em Deus? 

Editora  Betania  Digitalizao: hezinhah
Reviso: deisemat

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      Capitulo 1 - Um Encontro Deslumbrante

      - Vamos l, Cris, tente no piscar! disse Katie segurando a escovinha do rmel com pacincia. 
      - Estou tentando, Katie, mas  difcil. 
       Cris Miller, dezesseis anos, olhou para a amiga ruiva e franziu o nariz.
      -  Pode deixar que eu fao essa parte, falou. 
      - De que adianta eu maquiar voc para o grande encontro, replicou a outra, se voc acabar fazendo tudo sozinha. Agora, fique quieta e olhe pra cima. 
      Com cuidado, Katie girou a escovinha nos clios que emolduravam os olhos azuis esverdeados de Cris. 
      - E to estranho, Katie... 
      - Fique quieta. Olhe pra cima. Estou falando srio. No se mexa! ordenou Katie, terminando o olho direito e passando ao esquerdo. Bem, no pisque. Deixe secar. 
      Dando um passo para trs, para examinar seu trabalho, a jovem sorriu e exclamou: 
      - Perfeito! Hoje o Rick, definitivamente, vai cham-la de "olhos de matar". 
      Cris ajustou-se na beirada da cama. Ficara quase uma hora suportando a maquiagem completa da Katie, que incluiu fatias de pepino nos olhos enquanto fazia as 
unhas. Os pepinos tinham sido idia da Cris, algo que lera numa revista. E, corno o artigo prometia seus olhos de fato pareciam mais suaves. 
      Isso, antes da Katie comear a aplicar a sombra, o delineador, a base e o rmel. Agora eles pareciam um pouco pesados. 
      - Voc no acha que carregou demais no delineador? 
      - De leito nenhum. Olhe s, defendeu-se Katie, entregando-lhe o espelho de mo. 
      - Ah no! exclamou Cris, rindo ao ver seu cabelo envolto nos rolos aquecidos. Tinha-me esquecido desses torradores de crebro. Acha que meu cabelo j assou 
bastante? Olhe para mim, Katie! Estou mais parecendo urna aliengena cheia de fios para comunicar-se com o planeta-me. 
      - Sim, minha pequena marciana. Seu cabelo agora est castanho-dourado com jeito de torrada, pronto para urna escova. Primeiro me diga o que achou da maquiagem. 
      - No sei. Nunca fiz uma maquiagem to pesada assim. No parece normal. 
      - timo! exclamou Katie, pegando de volta o espelho e a escovinha do blush. Afinal de contas, esse no  um passeio normal. Voc no tem de parecer normal. 
      Passou a escovinha macia nas mas do rosto de Cris. 
      - A! Agora vamos arrumar o cabelo antes que a nave espacial faa conexo e aterrisse no seu quintal. 
      - Muito engraado. Voc tem certeza que sabe arrumar? 
      - Tenho. Agora v se pra quieta. 
      Cris sentia-se cada vez mais nervosa quando via aproximar- se o momento de ser "produzida". Depois de ela e Rick haverem sido por tanto tempo "apenas amigos", 
no sabia como se sentiria toda arrumada e indo a um restaurante chique para jantar com ele. Ou como seria o passeio de carro de uma hora e meia de Escondido at 
a praia de Newport. 
      - No vai me dizer que est ficando nervosa, vai? perguntou Katie. 
      - Ai! gritou Cris, afastando a escova agressiva de sua amiga. Voc est puxando meu cabelo.
      - Desculpe, mas estou com pressa. Falta s meia hora para ele chegar. 
      Nos ltimos cinco dias, Cris evitara perguntar  amiga a opinio dela sobre esse encontro com o Rick. Agora que o tempo se esvaa, a coragem de Cris tambm 
sumia. Sabedora de como a Katie tinha opinies bem definidas, finalmente se aventurou a fazer a pergunta arriscada. 
      - \/oc acha que estou agindo certo, saindo com o Rick? 
      - Devo acrescentar que voc vem esperando isso desde que ele prometeu essa sada especial, quando telefonou pra voc da Itlia, nas frias. 
      - Sei, mas voc acha que isso vai mudar as coisas entre mim e o Ted? indagou ela, cruzando e descruzando as longas pernas por baixo do pegnoir, atenta ao roar 
de suas meias de nilon. 
      - Depende. O Ted sabe que voc vai sair com o Rick, no sabe? 
      - No, Claro que no! 
      Katie interrompeu o penteado. 
      - Cris, voc disse que conversou ontem com o Ted, e que ele sabia que voc vai passar a noite na casa de seus tios em Newport. Por acaso no mencionou que 
vai a Newport porque o Rick ir lev-la para jantar l? 
      - Bem, no. 
      As amigas trocaram olhares, Os olhos verdes de Katie exigiam explicaes. 
      -  que o Ted me convidou para uma festa na casa da Trcia hoje, e eu respondi que no poderia ir. Disse que estaria na casa do Bob e da Marta, e ele respondeu 
que passaria l por volta do meio-dia. No perguntou por que eu ia l, e eu tambm no expliquei.
      Katie no mudou a expresso, e Cris continuou: 
      - O que  que eu devia fazer? Cancelar a sada com o Rick? Ele vai embora semana que vem, vai estudar fora, e por que tenho de contar ao Ted? 
      Katie voltou ao cabelo de Cris. 
      - E s um jantar, Katie! No preciso pedir permisso ao Ted. Tenho certeza que ele no se importaria. No  do tipo ciumento. Voc sabe disso!
      - Ei, calma a! Vai estragar todo o trabalho que tive com sua maquiagem, continuou ela afofando o cabelo de Cris. Eu estou aqui, no estou? Apoiando voc, 
ajudando-a a se arrumar. Estou do seu lado, Cris. No estou dizendo nada contra o Ted ou o Rick. A deciso  sua. Feche os olhos. Vau passar o spray. 
      Cris fechou os olhos, abaixando o queixo para facilitar o trabalho da amiga. Mentalmente, convenceu-se de que no havia nada demais em estar interessada em 
dois caras ao mesmo tempo. Como  que o fato de sair com o Rick poderia causar problemas entre ela e o Ted? Nenhum dos dois ficaria sabendo sobre o outro. Iria a 
um bom jantar essa noite com o Rick e no dia seguinte passaria a tarde com o Ted. Simples. 
O problema era a Katie. A amiga nunca fora f do Rick. Apesar de estar sendo amigvel, dando-lhe o maior apoio, se realmente dissesse o que estava pensando, acabaria 
com o Rick, dizendo que ele tinha muita lbia, era um exibido, e no o tipo de cara com quem a Cris devia estar saindo. Principalmente porque ela j tinha um cara 
como o Ted. 
      - O vestido! Voc devia t-lo posto antes de arrumar o cabelo! J sei; tente enfi-lo pelos ps. 
      Katie tirou o vestido preto do cabide e abriu o zper. Cris s o tinha usado duas vezes, porque a fazia sentir-se e parecer adulta demais. Ela no se achava 
em condies psicolgicas para usar um vestido desses. Mas fora o que Katie achara melhor para aquela noite, At mesmo a me de Cris tinha concordado que era o traje 
certo para um jantar formal. 
      Katie segurou o vestido aberto para que Cris o enfiasse pelos ps. 
      - Perfeito, declarou Katie, fechando o zper. No se mova, Cinderela. Estou procurando seu sapatinho de cristal. 
      Cris riu-se. 
      - Acho que voc est mais entusiasmada do que eu. 
      - Gosto de todo esse frufru. S porque no fui convidada para um encontro romntico, num restaurante fantstico, no quer dizer que eu no goste de fazer o 
papel de fada-madrinha. 
      Procurou no armrio o sapato preto de Cris, enquanto a amiga examinava mais atentamente o cabelo no espelho. 
      - Tem certeza de que no est exagerado? 
      - O qu? O cabelo ou o vestido? 
      - Qualquer um dos dois. Ambos. Eu todinha. Tem certeza de que estou bem? 
      Katie olhou junto com Cris a imagem desta no espelho da velha cmoda. 
      - Voc est deslumbrante! 
      - Deslumbrante? 
      - Sim, deslumbrante. E  assim que deve ser. Voc no est indo ao McDonald's com o Ted. Esse programa agora  coisa sria.
       Cris respirou fundo e sorriu. 
      - Est certo. Estou relaxada. Vou me divertir bastante. Tudo vai ser maravilhoso. 
      - Maravilhoso s, no: deslumbrante! Exclamou Katie. 
      Dez minutos mais tarde, chegou Rick, um rapaz alto e elegante, e entregou-lhe uma rosa vermelha de haste comprida. A, ela comeou a acreditar que Katie estivesse 
certa. Seria uma noite deslumbrante. 
      Cris sentiu-se um pouco sem graa, pois seus pais quiseram bater uma foto dos dois. Mas reconheceu que ficaria alegre de ter a foto. Acima de tudo, ficou indagando 
de si mesma o que o Rick pensava a seu respeito. Ser que achava que ela estava bem? Ser que gostara do vestido? Do cabelo? 
      Rick, atleta de todas as modalidades, com seus dois metros de altura, ficou atento ouvindo o pai de Cris que lhe dava instrues severas, dizendo que a filha 
teria de estar na casa de Bob e Marta antes das onze. Rick concordou, apertou a mo dele, e segurou a porta aberta para Cris passar. 
      Um instante antes de sair, Cris voltou a cabea e lanou um beijinho com o dedo indicador. O beijo era para a Katie, que permanecia escondida no quarto de 
Cris, olhando pela fresta da porta. 
      - Voc est linda, disse Rick, abrindo a porta de passageiro do seu Mustang 68. 
      Cris sentou-se no banco confortvel. Por um segundo passou-lhe pela mente como aquilo era diferente das vezes que entrara na velha "Kombi Nada" do Ted. 
      Voc est com o Rick. Tire o Ted da cabea!
      - Voc tambm est esbanjando charme, disse Cris enquanto ele entrava no carro. 
      O rapaz vestia uma cala social preta. camisa branca impecvel e um palet de seda preta. 
      - Gostei principalmente da gravata, acrescentou, passando a mo por cima, para sentir o tecido diferente. 
      Bem ao estilo exagerado do Rick, a gravata parecia cheia de confete fluorescente. 
      - Gostou? Comprei na Itlia. Pensei que acrescentaria um toque festivo ao nosso passeio, "olhos de matar", falou, dando-lhe um largo sorriso. Faz muito tempo 
que espero este encontro. 
      Em seguida, ligou a ignio e arrancou pela rua sossegada. 
      Aproximando mais a rosa do rosto para sentir-lhe o perfume, Cris pensou: No, esta no  urna noite normal. Katie, voc tinha razo. Hoje, a noite vai ser 
deslumbrante!
      
      
      
      
      
      
      
       Quando Rick se Ajoelhou
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      - Chegamos! anunciou Rick uma hora e meia depois, parando em frente do restaurante, que parecia um velho palacete italiano. No lhe disse que encontraria o 
melhor restaurante italiano do sul da Califrnia?  aqui: o Vilia Nova. 
      Rick parou atrs de um Cadillac e esperou o manobrista aproximar-se para estacionar o carro. 
      Cris ficou a pensar se deveria levar a rosa consigo ou no, e nesse momento o recepcionista ofereceu-lhe a mo ajudando-a a descer do carro. Sem erguer o olhar, 
pegou a bolsa e a rosa com uma das mos e deixou o jovem pux-la de p com a outra. 
      Em vez de solt-la, porm, ele, de repente, deu-lhe um abrao apertado e exclamou:
      - Cris! No acredito! Como  que voc est? 
      A voz era vagamente conhecida, mas como estavam abraados, Cris no via o rosto do rapaz. Achava-se realmente cm desvantagem. Afinal, ele se afastou e a jovem 
fitou-o. Em seguida, foi a vez de Rick ficar confuso. 
      - Douglas! exclamou Cris, alisando o cabelo. Estou to surpresa! Faz um tempo que no o vejo!
      O melhor amigo do Ted era a ltima pessoa que ela esperava ver naquela noite. 
      - Voc est de arrebentar, Cris!  alguma festa? perguntou ele, com um sorriso exuberante a alumiar seu rosto bronzeado. 
      - Douglas, quero lhe apresentar o Rick. Rick, este  o Douglas. 
      Cris esperava que as apresentaes a livrassem de ter de dar explicaes. Os moos se cumprimentaram, e Douglas foi logo dizendo: 
      - E to legal que voc esteja aqui hoje! Vai ter uma festa na casa da Trcia. Vocs tm de ir. Ainda lembra como se chega l, Cris? 
      - Bem, na verdade... falou Cris procurando as palavras certas, meio em pnico, o sangue latejando forte. 
      Era a festa para a qual o Ted a tinha convidado. No poderia chegar l com o Rick. Mas antes que pudesse dizer alguma coisa, Rick respondeu por ela. 
      - Claro, ns vamos. Faz tempo que estou querendo conhecer alguns desses amigos da praia de que a Cris vive falando. 
      - Legal! Eu os vejo quando deixar meu "planto" aqui, s nove e meia. 
      Rick atirou-lhe as chaves do carro, para que o estacionasse. Douglas deu uma corrida at o lugar do motorista e exclamou: 
      - Que Mustang legal! exclamou e, antes de entrar no veculo, ele completou: Mas isso  timo, Cris! Toda a galera vai ficar surpresa de v-la. 
      - , murmurou Cris enquanto o Rick colocava o brao em sua volta e a conduzia para dentro do restaurante. 
      Todos ficariam surpresos mesmo. Principalmente o Ted. 
      - E ento, quem  esse cara? Outro de seus antigos namorados? perguntou Rick. 
      - O Douglas? Nada disso. Ele  amigo do... comeou Cris, mas corrigiu-se a tempo, da Trcia. E a garota de onde vai ser a festa. Eles namoravam, mas agora 
so apenas amigos. 
      - E agora ele est procurando uma nova namorada? perguntou Rick. 
      - No sei. Acho que no, replicou Cris sentindo o corao batucar enquanto a recepcionista os conduzia por um labirinto de mesas. 
      As perguntas do Rick no estavam ajudando a acalm-1a. 
      - Acho que ele est procurando uma nova namorada e voc lhe pareceu uma boa pedida. 
      A recepcionista parou junto a urna mesa prxima da janela com vista para a baa de Newport. Rick puxou a cadeira para Cris, inclinou-se e cochichou no seu 
ouvido: 
      - Mas pode falar para o Douglas desistir, porque voc j tem dono! 
      Cris tornou o cardpio que lhe foi estendido. Abriu-o para esconder o rosto que sentia queimar. 
      No acredito que isso esteja acontecendo comigo! O que  que vou fazer? Por que o Rick est falando essas coisas? 
      - Que  que lhe parece bom, Cris? Dizem que qualquer um desses pratos de vitela  timo. 
      Rick ps-se a ler o cardpio. uma lista de nomes italianos, completos, com sotaque autntico. 
      - Humm! este aqui parece bom, disse ele lendo o nome de outro prato italiano. O que voc acha? 
      Timidamente, Cris olhou por cima do cardpio e conseguiu dar um sorriso amarelo.
      - Claro! replicou com a voz meio esganiada. 
      Limpou a garganta e tentou de novo. 
      - , parece bom. 
      - Ento  isso que vamos pedir, declarou o Rick, fechando seu cardpio. 
      Que prato ser esse? Pode ser at crebro de lula, pelo que sei. Tudo est acontecendo to depressa! Quero voltar ao ponto em que as coisas eram mais simples, 
como quando estvamos no carro, vindo para c. Quero me sentir deslumbrante. 
      Cris fechou seu cardpio e pegou a rosa que estava no colo, automaticamente, aproximando-a do nariz. Talvez sua fragrncia trouxesse de volta a magia. 
      Rick estendeu a mo, pegou no seu punho e puxou a flor para o seu lado da mesa. Cheirando, disse: 
      -  doce, mas no to doce quanto voc. 
      Cris sentiu-se encantada, mas isso no foi o bastante para acalmar a confuso interior que a dominava. Queria levar a conversa para um assunto neutro. A vista 
da janela, talvez. Virou-se e pensou em comentar como era bonita a luz do anoitecer de vero danando sobre a gua. Mas Rick tinha outras idias. 
      Ainda segurando seu pulso, com a outra mo, ele comeou a mexer com o fecho da pulseira "Para Sempre" de Cris. Era a pulseira que Ted lhe dera no Ano Novo. 
      - O que voc est fazendo? perguntou Cris, num leve tom de voz. 
      Ele j havia desabotoado o fecho e estava com a pulseira de ouro na mo fechada.
      - Ns rapazes somos engraados. Gostamos de saber que uma garota, quando sai com a gente, no traz consigo lembranas de relacionamentos passados. 
      - No  assim, Rick, comeou Cris a explicar. 
      Como, porm, explicaria seu relacionamento com Ted para o Rick, se nem para ela mesma conseguia explicaes? 
      - Ento como ? indagou o rapaz com um olhar de derreter. 
      - Eu e o Ted somos bons amigos. H muito tempo. 
      - Mas vocs no esto namorando, esto? 
      - Bem, no. 
      - Ted passeia com outras garotas, no ? 
      - Sim, j saiu... 
      Rick tomou a mo de Cris e segurou-a com firmeza. 
      - Ento me d uma chance justa, est bem? Voc no se importa de ficar sem a corrente enquanto estiver comigo, importa? 
      Rick colocou a pulseira sobre a mesa e soltou a mo de Cris. Ela sabia que o passo seguinte era dela. Sabia o que Rick queria que ela fizesse. Timidamente, 
pegou a pulseira e colocou-a na bolsa. Olhando para ele, tentou sorrir, como Rick. Por dentro, sentiu-se sobrepujada, dominada, como se o rapaz tivesse entrado no 
seu corao e rompido a fechadura do ba de tesouros onde ela guardava todos os seus sentimentos secretos.. No queria essa espcie de arrombamento. Mas, mais importante, 
tambm no queria perd-lo. 
Naquele momento, o garom chegou e a tenso se desfez, O homem serviu-os de gua, e colocou uma cesta de po de alho  sua frente. 
      Cris, ansiosamente, comeou a mordiscar o po enquanto ouvia o Rick comentando sobre sua viagem  Europa. Enquanto mastigava, no precisava responder. Ele 
parecia satisfeito em falar sem interrupo, e ela sorria e fazia "sim" com a cabea nas horas certas. Com isso, tinha tempo para acalmar-se e pensar. 
      No terceiro pedao de po, Cris chegou a uma concluso: 
      Estou sendo imatura e emotiva demais nisso tudo. Estou com o Rick. Estou jantando com ele! Quero estar aqui. Por que fico pensando no Ted? S porque no estou 
com a pulseira que ele me deu no significa que nosso relacionamento mudou. Vou me divertir esta noite, e no h nada de errado nisso. No h por que ficar nervosa.
      -  bom esse po, no acha? 
      Cris acenou que sim e notou que tinha esvaziado o cesto. 
      - Vou pedir mais, ofereceu Rick. 
      - No; no precisa, no. Tenho de guardar lugar para o jantar. Mas que  bom,  mesmo. 
      Sentindo-se mais calma e disposta a prestar mais ateno ao Rick, Cris esperava que ele no lhe fizesse perguntas sobre o que dissera, enquanto ela vasculhava 
sua alma. No tinha a mnima idia do que ele lhe falara. Talvez valesse a pena mudar de assunto. 
      - Fale sobre a faculdade... Quando vai pra l? O que  que voc vai estudar? 
      Rick mergulhou no assunto dando uma descrio completa de todos os cursos que estaria fazendo em seu primeiro ano da Universidade Estadual de San Diego. 
      - Voc sabe que apesar de estar indo embora na tera-feira, estarei s a uma hora de distncia. Virei a Escondido todo final de semana, no sabe? 
      - Isso  bom, replicou ela distrada. 
      - Acho que voc no entendeu as implicaes, Cris. Estarei em casa todo final de semana, e planejo pass-los com voc. 
      - Cris no respondeu. Seu rosto deve ter demonstrado certa surpresa, porque Rick riu-se e disse: 
      -  isso mesmo, Cris, estou-lhe pedindo para ser minha namorada. Isso mesmo; namorar firme. Como meu irmo diz, ser meu "outro eu". 
      Cris ainda no sabia o que responder. 
      - Por que est me olhando assim? Estou fazendo tudo errado? Espere a. J sei, disse Rick e levantou-se. 
      Aproximou-se da cadeira de Cris, ps um joelho no cho, e com jeito dramtico, mas terno, disse: 
      - Cris, h muito tempo quero lhe pedir isso. Nunca senti por outra garota o que sinto por voc. Quer ser minha namorada? 
      A sensao de Cris era a de que seu corao tinha parado de bater e o mundo tinha parado de rodar, esperando sua resposta. S sentia o pulso forte do Rick 
segurando suas mos trmulas. S enxergava os suaves olhos castanhos dele, implorando que ela dissesse sim. 
      - Sim, respondeu ela de repente, baixinho. 
      E o mundo comeou novamente a girar. O casal da mesa do lado sorriu e bateu palmas de leve. Rick voltou para o seu lugar. Encostado  mesa, disse: 
      - Eu tinha esperana de que voc respondesse isso. 
      O que acaba de acontecer? Pensei que seria simplesmente um jantar. Apenas um encontro. E acabo de concordar em namorar firme! Como foi que isso aconteceu? 
      Naquela hora chegaram as saladas e mais uma vez Cris achou bom poder manter a boca cheia para no ter de falar. Rick relatou entusiasmado seus planos para 
os prximos encontros. 
      Ela sorria, escutando-o pela metade. Da para a frente tudo que ela fez foi pela metade. Estava meio abobalhada. 
      Aps o jantar, Rick pediu uma sobremesa e caf para os dois. Cris encheu sua xcara de creme e acar e tomou uns trs goles. Enfiou o garfo na elegante sobremesa 
de chocolate e s deu uma mordida. Continuou meio tonta at sair do restaurante e esperar o manobrista trazer o carro. E no deu outra - foi o Douglas que trouxe 
o Mustang vermelho do Rick. 
      - Bem na hora! exclamou ele, saltando do carro e entregando as chaves ao Rick. Eu saio daqui a dois minutos. Se quiserem esperar um instante, podero me seguir 
at a casa da Trcia, 
      Cris se encolheu por dentro. 
      Ai, Douglas! Por que voc tinha de mencionar o assunto? Eu tinha esperana de que o Rick o esquecesse por completo. 
      - Boa idia, replicou Rick, abrindo a porta para a Cris. 
      Minutos depois, a camioneta amarela do Douglas estava  frente deles. O rapaz gesticulava pela janela indicando o rumo a seguir. 
      - Sabe, disse Cris, reunindo toda a coragem e fora possveis, na verdade ns no deveramos ir a essa festa. Voc no conhece ningum l e, afinal de contas, 
tenho de estar na casa da minha tia dentro de mais ou menos uma hora. No teramos muito tempo, e... 
      - Ei, tudo bem! interrompeu ele, pondo a mo na dela. Sei o que voc est querendo dizer, Cris. Tem cara que fica chateado quando fica conhecendo todos os 
amigos da namorada. Comigo no vai ser assim, voc vai ver. Faz muito tempo que eu quero ser seu namorado. Prometo deix-la orgulhosa de mim. 
      Quando ele a chamou de namorada, Cris apertou a rosa. Ficou um pouco tensa ao ouvi-lo dizer que tinha esperado muito tempo por isso, e mexendo os dedos tocou 
num pequeno espinho no alto da haste. 
      Dando um solavanco, Rick entrou com o carro na rampa da casa de Trcia. Com isso, ela espetou o dedo no espinho. 
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
       A Garota Mais Sortuda do Mundo
      3
      
      - Ai gritou Cris, tirando o dedo. 
      Pela claridade, s dava para enxergar umas gotinhas de sangue no corte. Rick desligou o motor do carro.
      - Machucou? perguntou, pegando um leno de papel debaixo de seu banco, e enrolou-o no dedo e examinou a rosa. Ah, que vacilo dessa gente! Pensei que eles retiravam 
os espinhos antes de vender essas coisas. Tudo bem agora? 
      Cris estivera chorando silenciosamente desde o instante em que fincara o dedo. No conseguia fazer as lgrimas pararem de rolar. 
      - Ah! voc est chorando, disse Rick com voz carinhosa, como se ela fosse uma criancinha. Venha c!
      Ofereceu outro lencinho e a envolveu com um dos braos. 
      - Est tudo bem. Verdade! falou ela, fungando e afastando-se para que Douglas no os visse abraados. Vou ao banheiro lavar a mo. 
      Abrindo a porta do seu lado, saltou para fora, e subiu apressada a escadaria da casa de Trcia. Olhando para trs, Cris viu Douglas de p, ao lado do carro 
do Rick, os dois conversando. 
      Para alivio seu, a porta da casa estava escancarada. Cris entrou sem ningum ver. Sabia onde era o banheiro e desapareceu dentro dele, trancando a porta. Como 
se tivesse encontrado um refgio todo particular, deixou as lgrimas correrem. 
      O que  que vou fazer? O que  que estamos fazendo aqui? Eu atrapalhei tanto as coisas, elas nunca vo se endireitar. O que  que o Rick pensa de mim? O que 
 que o Ted vai pensar? 
      Ouviu urna batida na porta e assustou-se. No respondeu, esperando que a pessoa fosse embora. 
      - Cris, voc est bem?  Helen. 
      Cris no via a Helen desde o Natal passado. Mas no estava muito a fim de v-Ia nem ver mais ningum, enquanto no conseguisse botar em ordem seus sentimentos 
confusos. 
      - Cris, me deixa entrar! gritou a moa batendo  porta. 
      Cris destrancou-a. Helen, uma jovem loira e magrinha, entrou, lanando-se sobre a Cris num grande abrao. Cris trancou rapidamente a porta de novo. 
      - O Douglas disse que voc estava aqui! exclamou Helen animada. E quem  aquele outro cara? Voc viu? Que pedao de homem liiindo! Voc est chorando. Que 
 que aconteceu? Que tem no dedo? O que foi? 
      Enxugando as lgrimas, Cris explicou: 
      - Na verdade, no  nada. Era um espinho. Eu devia ter sabido que isso aconteceria, replicou olhando para a cortina do box e falando como se Helen no estivesse 
ali. Com a rosa vem o espinho. Eu devia saber. Pensei que pudesse ter um sem o outro, mas as coisas no so assim. Como fui pensar que simplesmente poderia sair 
para jantar, e ficaria por isso mesmo? 
      - Do que  que voc est falando, Cris? Pirou de vez? indagou Helen, puxando a manga de Cris. Vire pra c, menina. Olhe no espelho. 
      Cris olhou e viu que a perfeita maquiagem que Katie fizera nela tinha-se dissolvido em dois rios de arco-ris que lhe escorriam pelo rosto. No momento, ela 
estava longe de parecer a namorada do Rick, a moa dos "olhos de matar". 
      Helen riu-se e entregou-lhe uma toalha. 
      - E melhor voc lavar essa cara antes desse troo secar por completo. Agora, me explique corno voc chegou aqui. Ted disse que voc no poderia vir.
      Molhando a toalha, Cris respondeu: 
      -  uma histria muito estranha. 
      - timo. Gosto de histrias estranhas. Voc veio com o Douglas? 
      - No, na verdade, vim com aquele outro rapaz, Samos para jantar no Villa Nova e por acaso encontramos o Douglas. 
      - Quer dizer que voc est tendo um encontro com esse cara lindo de morrer?! Como ele se chama? Rick? Ah! Cris, voc  a garota de mais sorte do mundo! 
      - , disse Cris zombeteira. Tenho tanta sorte, que agora estou namorando firme com ele. 
      - O qu? fez Helen, dando um gritinho estridente, agarrando o cotovelo de Cris e apertando-o tanto, que Cris deixou cair a toalha. Quando aconteceu isso? O 
Ted j sabe?
      - No, claro que no. Rick me pediu hoje no jantar. 
      Cris explicou toda a situao enquanto lavava e enxugava o rosto. Helen escutou cada palavra boquiaberta e de olhos esbugalhados. 
      - Eu tinha razo. Voc  mesmo a garota mais sortuda do mundo. 
      - Mas no me sinto assim, suspirou Cris. Sinto-me numa confuso s. 
      - Por qu? O Rick  cristo, no ? 
      - Sim,  claro. 
      - Ento qual  o problema? O Ted? Voc acha que o Ted a trataria como o Rick? Iria dar-lhe rosas, levar pra jantar em restaurante chique e dizer que esperaria 
at seus pais permitirem que voc namorasse? Pense s nisso, Cris! 
      - Sei no. Gosto do Rick, mas faz muito tempo que gosto do Ted. 
      Helen colocou as mos na cintura, como quem vai ralhar com algum. 
      - Voc tem dezesseis anos. Uma jovem senhorita. Em algumas culturas, poderia at se casar. Conheceu o Ted quando tinha quatorze anos, e teve uma paixonite 
aguda por ele, certo? Muita coisa mudou desde ento. Tem de encarar a realidade, Cris. O Ted nunca vai ser o tipo de cara que leva uma garota a um restaurante. No 
deixe que a aparncia dele de surfista loiro de olhos azuis a engane. Ele no  um cara "normal". Ele quer ser missionrio, no sabe?
       - Eu sei. 
      - O Ted  o tipo de rapaz que vai acabar no se casando nunca. Vai passar a vida entre os nativos, dormindo em rede e comendo larvas* e salvando as almas de 
ndios que nunca viram um homem branco. E at capaz dele ganhar o Prmio Nobel da Paz e morrer na panela de algum antropfago caador de cabea. 
      _____________________
      *Larva de um inseto, que os ndios comem
      
      - Helen! exclamou Cris, interrompendo a exagerada amiga com uma risada gostosa. Onde voc quer chegar? 
      - No v?  o seguinte: voc deve namorar  o Rick mesmo. No fundo voc sempre quis namor-lo, seno quando ele lhe pediu, seu corao teria dito "no" e voc 
teria recusado. Mas voc disse "sim" porque quer ser a namorada dele. Tem como negar? 
      Cris respirou fundo. Pensou no jeito carinhoso como o Rick a tratara quando ela espetou o dedo. O Ted nunca teria agido daquele jeito. No diria as coisas 
que o Rick disse nesta noite. Rick queria que ela fosse sua namorada, e, sim, talvez l no fundo ela gostasse de t-lo como namorado. 
      - No sei no, Helen. Talvez voc tenha razo. 
      - S est sendo muito difcil porque voc, provavelmente. se sente mal de saber que o Ted vai descobrir a coisa desse modo. Mas voc no tem culpa. Alis, 
nem queria que as coisas acontecessem assim. Alm do mais, conheo o Ted h muito tempo, e espero que no se ofenda, mas o Ted provavelmente vai-se consolar do seu 
fora muito mais depressa do que voc se recuperaria de um fora dele. Ele  desse jeito. 
      - , pode ser que voc esteja certa. 
      As duas ficaram em silncio por uns instantes, e Helen. finalmente, disse: 
      - Vamos! Todo mundo est louco pra ver voc. Vamos l, e o que acontecer, aconteceu. 
      Cris procurou o estojo de maquiagem na bolsa e arranjou rapidamente o rosto. Com Helen empurrando-a de leve para fora da porta, ela foi at o corredor de entrada. 
Quando entraram na sala, avistou logo o Rick, mas no o Ted. Rick no perdera tempo. J se tornara o centro das atenes de um crculo de garotas. 
      - Olhe s, gente! disse Helen rompendo o encanto que Rick exercia sobre elas. A Cris chegou! 
      - Ol! 
      - Tudo bem, Cris? 
      - Voc est tima! 
      Cada uma das meninas a cumprimentou com carinho, mas nenhuma saiu de seu lugar. Voltando-se para o Rick, insistiam para que ele continuasse contando sua histria. 
Ele ergueu o olhar para Cris, rapidamente, encolheu os ombros e deu uma 
piscadela para ela. 
      - Vamos, disse Helen. A Trcia est na cozinha. Vamos pra l. 
       isso a, e o Ted provavelmente est l tambm. Ser que estou pronta pra enfrent-lo? Por que estou to nervosa? Tudo que a Helen disse fazia sentido. Mas 
eu ainda no me convenci! 
      Trcia estava de costas para elas, tirando latas de refrigerante da geladeira. Virando-se, fechou a porta com o p. Foi a que Cris viu o Ted sentado numa 
cadeira da cozinha, conversando com o Douglas. 
      - Cris! exclamou Trcia, abraando-a pelo pescoo, e quase lhe batendo na cabea com uma lata de refrigerante. Ah! desculpe! falou rindo. Estou to contente 
por voc ter vindo! O Ted disse que estaria na casa dos seus tios amanh, mas achei que no pudesse vir hoje. 
      Douglas, sentado perto do Ted, entrou na conversa. 
      - , eu contei para eles como encontrei voc e o Rick vasculhando as latas de lixo l do meu restaurante e fiquei com d de vocs e os trouxe pra c. 
      - Engraadinho! S porque vocs no sabem o que significa levar uma garota para um jantar agradvel, isso no lhes d o direito de debochar daqueles que sabem, 
disse Helen. 
      De repente, Cris lembrou-se da ltima vez que estivera na casa de Tricia. Fora no Ano Novo e ela tinha usado esse mesmo vestido preto. S que naquela noite 
ela viera com o Ted. Fora naquela noite que Ted lhe dera a pulseira. Agora, parecia que tinha passado uma vida inteira.
      No conseguia encarar o Ted. Para evitar que seus olhos se encontrassem, ficou olhando para baixo, para o dedo machucado, fingindo que necessitava de muito 
mais ateno do que na realidade precisava. Trcia sacou logo e perguntou-lhe: 
      - Quer um Band-Aid? Tem um aqui. Ela abriu uma gaveta e tirou um curativo. 
      Acho que preciso de um  para meu corao. Se eu olhar para o Ted, meu corao vai sangrar e sujar todo o cho. 
      Trcia aplicou-lhe o Band-Aid, deu-lhe um refrigerante e chamou-a para o quarto, para "ver uma coisa". 
      Cris ficou aliviada quando virou as costas para o Ted, seguindo a Helen e a Trcia. Tricia fechou a porta, acendeu a luz e virou seus olhos enormes para Cris. 
      - Onde voc encontrou ele? 
      - Rick? 
      - Ah, esse  que  o Rick? Aquele que voc me contou, l da sua escola? Nem quis acreditar quando o Douglas disse que vocs estavam jantando no Villa Nova! 
E voc, heim! Est toda produzida! Me conte tudo. 
      Cris se ps a narrar de novo a histria para a Trcia, enquanto Helen fornecia os detalhes que faltavam. Trcia escutou atentamente, e Helen concluiu explicando 
que Cris, certamente, desejava ser namorada do Rick, porque, do contrrio, no teria dito "sim" quando ele lhe pediu. 
      -  assim que voc se sente? perguntou Tricia. 
      - Acho que sim. Tudo aconteceu to depressa, no sei bem o que sinto. 
      - Ele parece um cara legal, um cavalheiro, disse Tricia. Mas eu no sabia que voc gostava dele a esse ponto. 
      -  estranho. Ficamos sendo amigos por muito tempo, porque eu no tinha idade pra namorar, e ento parecia que nunca seramos namorados. 
      - E no  assim que devem ser os relacionamentos? Primeiro, amigos, e s depois, namorados? 
      - Deve ser. Nunca estive nessa situao. 
      - Acho que voc est na melhor situao possvel. Vocs so bons amigos, ele  mais velho que voc,  lindo, e  cristo tambm! Que mais voc queria?
      Quando Helen disse isso, algo dissolveu-se dentro de Cris. Helen tinha razo. Que mais ela poderia desejar? Por que estava com um p atrs? Devia sentir-se 
honrada por ter sido escolhida pelo Rick, que esperou tanto tempo para sair com ela. Seria um relacionamento verdadeiro, com um cara que queria ser seu namorado 
e j tinha provado, mais de uma vez, o quanto gostava dela. Com o corao comeando a empolgar-se, Cris explicou: 
      - Ele vai estudar na Universidade Estadual de San Diego, e ento s nos veremos nos finais de semana. Ele tem um monte de idias divertidas sobre coisas a 
fazer. Diz que comeou a compor listas de idias para sadas e programas h mais de seis meses, j que teve de esperar tanto tempo, at que eu tivesse idade para 
namorar.
      - Eu lhe perguntei, disse Helen com olhos brilhando de entusiasmo, que outro cara neste planeta faria uma coisa dessas? Ele parece um sonho que se realizou. 
Ainda bem que voc acordou a tempo de perceber! E veja como est tudo melhor depois que voc desabafou! Voc devia ter visto ela no banheiro, Trcia. Resmungando 
porque as rosas tm espinhos. Pensei at que fosse desmaiar! 
      Cris deu uma risada. 
      - Acho que ainda no estava acostumada com a idia de ter um namorado. Sabe o que eu estava pensando, no sabe? Rick  a rosa, mas ter de ver o Ted e tudo 
o mais era o espinho. 
      No rosto redondo de Trcia surgiu uma expresso sria. 
      - Voc tem razo, Cris. Namorar  exatamente isso: uma rosa com espinhos, porque quando acaba, ou voc se machuca ou a outra pessoa se fere. No tem como escapar 
disso. Na maioria das vezes, os dois se ferem. 
      Helen interrompeu-a com seu jeito alegre: 
      - Foi por isso que eu disse que no deve achar que isso ser um problema para o Ted. Afinal, como  que pode "terminar" se vocs dois nunca foram namorados 
de fato? No tinha com ele o mesmo relacionamento que voc tem com o Rick. 
      Naquele momento algum bateu de leve na porta. 
      - Detesto interromper as coisas a, era a voz de Rick ecoando atravs da porta fechada, enchendo o quarto de Trcia. Mas preciso levar a minha namorada para 
casa.
      - "Namorada", cochichou Helen, e as trs garotas fizeram cara alegre e apertaram os braos umas das outras. 
      - J vou, Rick, respondeu Cris.
      - Amanh voc vai passar o dia na casa dos seus tios, certo? Perguntou Trcia.
      Cris acenou que sim, afastando o pensamento de que deveria encontrar-se com Ted no dia seguinte, ao meio-dia. 
      - Vamos ver se d para nos encontrarmos? 
      - Claro. Vou estar por l, e livre de qualquer compromisso. 
      Agora que apareci aqui com o Rick, o Ted certamente no vai me procurar amanh.
      - Eu ligo pra voc ento, prometeu Trcia, abrindo a porta.
       Rick estava no corredor os braos cruzados no peito, olhando 
para o teto com cara de bobo e assobiando. 
      - Ah! Cris, disse ele. A garota invisvel. 
      - Desculpe. Estvamos apenas conversando. 
      Rick tomou sua mo e foram at a porta de sada. 
      - Tchau pra todo mundo. Foi um prazer conhecer vocs. Ns os veremos mais tarde!
      Douglas apareceu vindo da cozinha, mas Ted ficou l. No fundo da mente, Cris pensava: 
      Est vendo? Se o Ted realmente gostasse de mim, procuraria conversar comigo antes que eu sasse. Se ele realmente quisesse um relacionamento comigo do jeito 
que o Rick quer, lutaria pra me conquistar. Mas est me deixando ir. Ele no se interessa por mim e nunca vai se interessar do mesmo jeito que o Rick. 
      Douglas despediu-se de Rick: 
      - Ento nos veremos no campus semana que vem, Cris, voc no me contou que seu namorado vai estudar na mesma faculdade que eu. 
      - Ento voc me avisa se abrir a vaga na sua repblica, disse Rick. Prefiro morar l do que no dormitrio do compus. 
      - Est certo, O rapaz tem at segunda-feira para dar a parte dele e se no o fizer est fora. Seria timo ter outro cristo no apartamento. 
      Isso  uma loucura! Parece que o Rick est entrando instantaneamente em minha vida para tornar o lugar do Ted, at mesmo na amizade com o Douglas.
      Rick abanou a mo para as garotas, conduziu Cris porta afora e entraram no carro. 
      - Agora me ensina como se chega  casa de seus tios. 
      Cris deu a orientao e Rick dirigiu at a residncia deles que dava de frente para a praia. 
      - Ainda faltam alguns minutos para voc entrar, disse ele. Que tal uma rpida caminhada pela praia? 
      - Tem certeza que d tempo? 
      - Absoluta! Vamos! respondeu o rapaz e abriu-lhe a porta. 
      Tomando-a pela mo, conduziu-a at onde comeava a areia. Tiraram os sapatos, e Rick os colocou em cima de uma mureta de concreto. 
      - Me lembre onde os estou deixando, disse ele, agarrando de novo a mo de Cris e puxando-a. 
      - Venha! gritou ele, e comeou a correr, levando-a junto. 
      - Espere a! Minha meia est se enchendo de areia! 
      Rick ria-se olhando-a limpar os ps. Com cuidado, ela sentou-se na beirada de uma churrasqueira e se ps a remexer os dedos para se livrar das partculas. 
Olhou para o Rick e depois para o lugar onde estava. De repente, saltou da churrasqueira como se ela tivesse esquentado. 
      No acredito! Com tantas churrasqueiras nesta praia, por que fui parar logo ao lado desta? No era com oRick que eu devia estar aqui! Foi aqui que eu e o Ted 
tomamos o caf da manh no dia de Natal!
      - Vamos! Aposto corrida at a gua! desafiou. Correram pela areia at perto da gua. Com um surto de energia, o Rick passou  frente. Chegando  beira, virou-se 
e abraou-a. 
      - No vale! disse Cris sem flego. A areia na meia me atrapalhou. 
      - Ento o que acha? Vamos correr de novo? 
      Sem que eles o percebessem uma onda aproximou-se e molhou os ps deles. 
Cris deu um grito de susto e correu para a parte mais alta. 
      - Olhe! disse Rick, seguindo-a e apontando para o cu. E a lua dos pedidos. 
      Cris olhou a pequenina fatia de alabastro luminoso. 
      - Lua dos pedidos?
      - . Ela to pequena que a gente tem de fazer um pedido depressa, antes que ela desaparea. 
      Cris sorriu. 
      - Quando meu irmo era pequeno, ele costumava chamar essa lua de "unha de Deus", porque parece aquele pedao de unha que a gente corta. Lembro a primeira vez 
que ele a viu assim. Ele disse: "Olha l! Deus cortou a unha dele e deixou no cu!"
      Aparentemente, ele no achou o caso muito interessante e disse: 
      - Vamos l. Feche os olhos e faa um pedido. 
      Cris continuou a brincadeira, virando a cabea para a lua e fechando os olhos. Antes de pensar no que iria pedir, Rick a beijou. 
      Abriu os olhos e viu que o rapaz sorria. 
      - Realizei o meu pedido! disse ele. 
      -  melhor voltar, disse Cris logo em seguida. 
      Tudo andava muito depressa novamente, e ela queria estar sentindo a segurana de seu quarto, na casa de Bob e Marta, para pr os pensamentos em ordem. 
      - Tenho certeza de que ainda temos tempo, disse Rick, puxando Cris para junto de si. Venha aqui, me conte o que pediu. 
      Nervosa, Cris se afastou. 
      - No quero me atrasar. Sabe como o meu pai  duro. No quero me dar mal. 
      - Est bem, disse ele, soltando-a. 
      Caminharam de volta e ele passou o brao nos ombros dela. 
      - Est com frio? indagou ele. 
      - No, no estou. 
      A verdade  que ela estava ardendo. Depois de ter corrido e ter sido beijada daquele jeito, e agora andando pela areia com o brao do Rick em sua volta, como 
podia sentir frio? 
      Cris tambm passou o brao na cintura do Rick. Por causa da sua estatura, sempre se sentira alta e desajeitada. Nesse momento, enlaados um ao outro, ela se 
sentia frgil e segura. 
      - Como voc vai voltar para Escondido amanh? 
      - Meu tio vai me levar. 
      - Pea a ele que poupe o dinheiro da gasolina. Eu venho busc-la. 
      - Mas, Rick,  uma viagem de hora e meia.
      - E da? 
      - No precisa voltar aqui por minha causa. 
      Cris sentia o brao dele apertando no ombro e sabia que no adiantava fazer objeo.
      - A que horas voc quer que eu venha? 
      - No sei. Quando for conveniente pra voc. 
      - Estarei aqui s cinco da tarde, disse Rick. 
      Chegaram  calada e apanharam os sapatos. 
Cris notou que algum estava de p na calada perto do carro do Rick, olhando rua abaixo. Deram mais uns passos, e ela percebeu que era seu tio. 
      - Boa noite! saudou Bob, secamente. Noite agradvel, no ? 
      - Ainda no so onze horas, so? perguntou Cris, escondendo a vergonha de que seu tio estivesse l fora, esperando-a. 
      Bob consultou o relgio. 
      - Exatamente onze e vinte e sete. Voc vai precisar de ajuda com a maleta, senhorita? 
      Ele imitou perfeitamente um porteiro de hotel, mas Cris sabia que podia esperar problemas. 
      Rick abriu o porta-malas e entregou a maleta de Cris ao Bob. Sorrindo amavelmente, disse: 
      - Boa noite, senhor. Meu nome  Rick Doyle. 
      - Ah Desculpe, disse Cris. Rick, quero apresentar-lhe meu tio Bob. Tio Bob, este aqui  o Rick. Mas, provavelmente, o senhor j tinha percebido. 
      Enquanto Cris falava meio desajeitadamente, os dois se cumprimentavam e Rick explicava que estaria de volta para buscar a Cris no dia seguinte. 
      - Ento eu o vejo amanh, disse Cris, incerta sobre corno despedir-se do Rick com o tio por perto. 
      Abanou a mo e o rapaz acenou de volta. 
      - s cinco, repetiu ele ao entrar no carro. 
      Cris seguiu o tio em direo  porta e apesar de no estar tentando pensar no Ted, no conseguia deixar de fora a lembrana de quando caminhara com ele at 
essa porta. O rapaz lhe dera um beijo ali mesmo, onde estavam agora, nessa varanda. 
      No momento em que Cris e o tio entraram, tia Marta, delicada e de cabelos escuros, apareceu de dedo em riste: 
      -  bom voc agradecer a sorte que tem de ter um tio que salvou sua pele hoje, Cristina. Onde estava? Seu pai telefonou s 11:05 para verificar se j tinha 
chegado, e no sabamos onde voc estava!
      Cris sentiu uma pontada no estmago. 
      - O que voc disse pra ele? 
      Bob cortou a ralhao de Marta. 
      - Eu tinha visto o carro chegar alguns minutos antes e sabia que estavam por perto, disse ele com voz calma. Calculei que estivessem fazendo uma caminhada 
ao luar. J fui jovem. Sei dessas coisas. 
      - S posso lhe dizer que ainda bem que seu pai no pediu para falar com voc, ou estaria numa enrascada feia! acrescentou Marta. 
      - Desculpe. Eu no estava de relgio, e o Rick disse que ainda faltava muito tempo.
      Bob e Marta se entreolharam, deixando Cris meio confusa, A tia continuou em silncio; Bob pegou a mala e ps-se a subir as escadas. Volvendo a cabea sobre 
o ombro, disse: 
      -  melhor voc decidir de uma vez por todas. 
      - Decidir o qu? perguntou Cris, seguindo-o at o quarto. 
      - Se vai acreditar em tudo que esse jovem lhe disser. 
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Mais Tarde, Cris
      4
      
      Cris no demorou a dormir naquela noite. Queria colocar a rosa do Rick debaixo do travesseiro, mas descobriu que a deixara dentro do carro, junto com a bolsa. 
Isso no a incomodou, porque sabia que se encontraria com ele no dia seguinte, quando retomariam o fio da conversa interrompida. 
      Mesmo tendo ido deitar-se depois da meia-noite, acordou s 5:15, e no conseguiu mais dormir. Depois de revirar-se na cama por meia hora, levantou-se. Abrindo 
as cortinas de bordado ingls, olhou para a praia, sentindo-se como uma ave olhando a terra do alto de seu poleiro. 
      A praia deserta sempre a fascinava com sua imensido. Gostava principalmente desse cenrio  luz do amanhecer, quando uma neblina tnue subia do mar, dando 
um halo macio  areia. Tudo l fora parecia um mundo de sonhos, e a manh a convidava a caminhar em silncio. 
      Seguindo seu impulso, Cris vestiu jeans e uma malha, e desceu bem quietinha, ao encontro da nvoa matinal. A umidade deu-lhe uns calafrios e ela desejou ter 
trazido um casaco. Comeou a correr para aquecer-se, sentindo a areia encher o tnis. Foi at a parte mais firme do areal e lembrou-se de como fora divertido apostar 
urna corrida ali com o Rick,  noite, na vspera. Talvez pudessem fazer agora unia nova caminhada. Queria sentir de novo o brao dele em seus ombros, e ouvi-lo dizer 
que gostava dela.
      , disse a si mesma, Rick realmente me faz sentir coisas que nunca senti por ningum. Deve ser isso que a Helen estava dizendo, a diferena entre uma "paixonite" 
e um relacionamento de verdade. 
      Encheu os pulmes do ar mido enquanto corria. Um acesso de tosse fez com que parasse e sentasse na areia por um momento. Tinha ido bem longe e resolveu recuperar 
o flego antes de reiniciar o cooper. Esperava conseguir entrar em casa sem ser notada e dormir majs algumas horas. 
      A mente e as emoes no estavam mais sossegadas. Mas, pelo menos, correr ajudava a se cansar um pouco. 
      J ia virar-se para voltar quando notou outra pessoa correndo em meio  neblina, vindo em sua direo. Pela primeira vez, sentiu medo de estar sozinha na praia. 
Reconheceu que fora loucura sair desacompanhada. Percebeu tambm que se de repente levantasse e comeasse a correr, ela logo a notaria. Com o corao batendo rpido, 
resolveu ficar parada, na esperana de que ela no a avistasse. 
      Envolvendo os joelhos com os braos, e olhando para baixo, pensou: 
      Continue correndo, continue correndo, voc a. No me veja. Sou Invisvel.
      Os ps do corredor se aproximaram. Para horror dela, o rumor de suas passadas cessou bem na sua frente. Compreendeu que de estava parado, olhando para ela, 
examinando-a. 
      - Senhor Deus, me proteja! sussurrou. 
      Ele chegou mais perto e sentou-se ao seu lado. Ela ouvia-o arfar.
      Sem erguer o olhar e antes que ele dissesse uma palavra, compreendeu que era o Ted. 
      O tumulto das emoes cessou como um castelo de areia que desmorona quando a mar sobe e d contra ele. 
      Que  que ele est fazendo aqui? Por que est na praia a esta hora ia manh? Ele tambm teve dificuldade em dormir? No posso olhar na cara dele. Que  que 
vou dizer?
      Ficaram ali sentados muito tempo, um ao lado do outro, em silncio. Imvel, Cris ouvia a respirao do Ted mudar de ritmo, desacelerar-se. Mantendo o dorso 
dobrado o tempo todo, a vista baixa, fitando o cho, sentiu as costas comearem a doer. 
      Pior de tudo, ela tremia sem parar por causa do frio mido, enquanto interiormente gritava: 
      "Ted, no v que eu estou com frio? Por que no me abraa?" 
      Mas conhecia bastante o rapaz e sabia que, provavelmente, naquele momento ele estava orando e no pensando num modo de faz-la sentir mais segura ou confortvel.
      Mentalmente, Cris ensaiou uma dzia de frases para comear a conversa. Nenhuma chegou  boca. Que poderia dizer? "Quero terminar com voc"? Como, se eles no 
eram namorados? Nem poderia entregar-lhe simbolicamente a pulseira "Para Sempre" e sair correndo pela praia, porque deixara a bolsa no carro do Rick. 
      Sentia os passos de outro corredor vindo na direo deles e usou a oportunidade para levantar a cabea e ver quem passava. 
      - Bom dia, disse-lhes um senhor mais velho. Bela manh, no ? 
      - Bom dia, respondeu Ted quebrando o silncio. 
      Para surpresa dela, no momento em que ouviu a rica voz de Ted, algo dentro dela estremeceu-se, e comeou a chorar. Piscava os olhos, contraindo a garganta, 
mas as lgrimas continuavam jorrando. 
      Esforando-se para falar, Cris sussurrou: 
      - Desculpe!
      De repente, tudo ficou claro e ela preparou-se para dizer a verdade que estava no seu corao. Sabia que tinha fingido no ver nada at esse instante. Agora 
era hora de falar abertamente. Ela queria que tudo voltasse a ser como antes, no relacionamento com o Ted. No dia anterior tivera apenas um encontro com o Rick. 
Sem compromissos. No era sua namorada, afinal de contas. Nunca mais iria sair com ele, S queria sair com o Ted. Queria ser namorada do Ted. Sempre quisera.
      - Eu... comeou. Sei que ontem  noite ficou parecendo que eu queria namorar o Rick, mas no  isso, no. Foi um encontro. No estou namorando ele, O que sinto 
por voc no mudou nada.
      - Eu sei, disse Ted. 
      Cris suspirou aliviada e continuou, com medo de que, se parasse, nunca dissesse o que lhe ia no corao. 
      - No sei exatamente o que dizer, Ted. J tentei antes e nunca consegui achar as palavras certas. Gosto de voc de verdade. Quero-lhe muito bem. Nunca gostei 
de ningum como gosto de voc. Eu... 
      Sabia que ainda no poderia dizer a palavra "amo" mas tinha existir algum termo mais forte do que "gosto". No encontrava tal palavra. 
      - Eu realmente gosto de voc, Ted, Espero que entenda o que estou dizendo. 
      Cris sentiu-se como se lhe houvessem aberto o peito, e agora 
estivesse com o corao na mo, esperando que Ted o aceitasse. 
      - Entendo bem o que voc est dizendo, Cris, disse ele e fez uma pausa. 
Em seguida, com palavras rpidas, pensadas, como se tivesse ensaiado a noite toda, continuou: 
      - Mas voc tem mais dois anos de colegial pela frente, e precisa se sentir livre para fazer amizades e sair com quem voc quiser sem achar que tem de me pedir 
desculpas. Foi egosmo de minha parte pensar que eu pudesse segur-la e esperar voc crescer. 
      Suas palavras foram como um balde de gua gelada e salgada no rosto. Todos os seus sentimentos vulnerveis e transparentes de alguns segundos antes transformaram-se 
imediatamente em raiva. 
      Esperar que eu cresa? Que  que ele acha que eu sou? Uma criancinha? 
      Suas lgrimas rolavam como pedrinhas quentes de raiva. Irrefletidamente, deixou escapar: 
      - Muito bem, ento eu mando sua pulseira pelo correio. 
      - No, ele  sua para sempre. Lembra-se do que eu disse quando a entreguei para voc? No importa o que acontecer, vamos ser amigos para sempre. Eu estava 
sendo sincero naquela hora, e estou sendo agora. 
      Incrvel! pensou Cris, enxugando as lgrimas. Eu abro o corao e ele me manda crescer! No posso nem ter a satisfao de "acabar", porque ele no aceita de 
volta a pulseira. 
      Ficaram sentados em silncio, aparentemente sem mais nada a dizer. Ento, bem ao jeito dele, Ted colocou a mo sobre a testa de Cris e perguntou: 
      - Posso abeno-la? 
      - Me abenoar? 
      - Cris, comeou Ted, sem esperar que ela desse permisso, que o Senhor te abenoe e te guarde. Que o Senhor sobre ti levante o rosto e te d a paz. E que voc 
sempre ame a Jesus em primeiro lugar, acima de tudo. 
      Me abenoar? pensou ela no momento em que ele terminou. Faa o rosto do Senhor brilhar em mim e me dar paz? Neste momento, eu sinto tudo, menos paz! Ted, seu 
superespiritual, voc devia era me abraar, dizer que me ama e que vai lutar pra me reconquistar! 
      Ted levantou-se. 
      O qu? S isso? Eu lhe entrego meu corao e voc me diz pra crescer e a ministra uma espcie de bno apstolica para que tudo fique certo?! Agora vai embora, 
assim, simplesmente? 
      Ted firmou os ps na areia e olhou as ondas com os braos cruzados sobre o peito largo. 
      - Vou para Oahu, anunciou. 
      Cris ergueu-se de um salto. 
      - O qu? 
      Uma coisa era v-lo ministrar-lhe a "bno", tencionando deix-la  vontade para sair com quem quisesse; outra coisa era ouvir-lhe o plano de partir para 
longe, o que a encheu de desespero, dando-lhe uma pungente sensao de perda definitiva. 
      - Resolvi pegar o circuito de surfe com o Kimo, como eu e ele combinamos quando ramos garotos. Telefonei para ele ontem  noite e ele disse que posso ficar 
em sua casa na Praia Norte. Vou embora amanh, 
      - Amanh? Ted! exclamou ela com medo e raiva misturados s palavras. Por qu? O que est acontecendo com voc? 
      Ele explicou sucintamente: 
      - Vou estudar na Universidade do Hava.  matrcula  segunda-feira. 
      - Na Universidade do Hava? Por que l?
      - Porque assim posso fazer um semestre de faculdade antes da competio de surfe. Com isso meu pai vai ficar muito contente. 
      Seu pai vai ficar contente? E eu? No estou nem um pouco contente por v-lo partir. E voc? Voc realmente quer fazer isso, ou resolveu ontem  noite quando 
me viu com o Rick? 
      - Ted, o que est acontecendo conosco? Que  que h? 
      Ele virou-se para ela e fitou-lhe a vista, afogada no pranto. 
Seus olhos azuis-prateados que cem vezes abraaram os de Cris estavam agora distantes, embaados num nevoeiro aguado. 
      - Estamos mudando, Cris. S isso. Ns dois estamos mudando.
      De repente, inesperadamente, Ted envolveu-a num abrao apertado. Em seguida, largou-a e saiu andando pela praia. 
      - Ted! gritou Cris, mas ele continuou se afastando.
      Corra atrs dele, Cris! Lance os braos em volta dele. Convena-o no ir embora para Oahu. Esta  sua ltima chance! Faa alguma coisa!
      A mente jorrava ordens, e as emoes corriam numa velocidade apavorante, mas os ps se recusaram a mover-se. A garganta fechou-se, e ela ficou parada, gelada 
e sem palavras. Enquanto isso, Ted se afastava dela cada vez mais.
      - Tchau, Ted sussurrou ela em meio ao ar fino da manh. 
      A certa distncia, Ted virou-se, limpou rapidamente os olhos com o brao, e fez um sinal de que estava "tudo legal". 
      - Mais tarde, Cris! gritou ele, e o som de sua voz rouca pesou no ar como o chamado de um grande abismo.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      De Mos Dadas
      5
      Dormir, disse Cris a si mesma ao caminhar com passos lentos pela areia de volta para a casa de Bob e Marta. Preciso dormir. S depois  que vou conseguir pensar 
nisso tudo, e saber o que fazer.
      Seu plano de voltar para a cama furou, pois encontrou os tios sentados  mesa tomando o caf da manh. 
      - Voc est querendo me deixar de cabelos brancos, Cristina? ralhou Marta. Primeiro, chegou tarde ontem  noite, e agora no ficou em casa nem seis horas, 
e j saiu de novo! Onde esteve, e com quem? 
      Cris nunca tinha visto a tia to zangada. 
      - Eu no consegui dormir, e fui fazer uma caminhada. 
      - Sozinha? No sabe que isso  perigoso? O que  que tinha na cabea, menina?! 
      Bob levantou-se e ps as mos nos ombros trmulos de Cris. Olhando seus olhos marejados de lgrimas, perguntou com voz calma: 
      - Voc est bem? 
      Cris no sabia se cerrava os dentes e se transformava numa pedra ou se chorava no ombro do tio. Acabou safando-se com uma pergunta.
      - Me d licena? Preciso ir ao banheiro. 
      Saiu correndo e ouviu a tia dizer: 
      - S isso? Voc vai deix-la escapar desse jeito? 
      Cris trancou a porta do banheiro junto do seu quarto. Sentou em um canto, toda encolhida, e chorou at no poder mais. Tudo, por dentro e por fora, doa. Ela 
forou-se a entrar no chuveiro e tomar um banho quente, deixando que a gua massageasse as partes doloridas de seu corpo. 
      Quando as pontas dos seus dedos comearam a se enrugar, fechou a gua e enrolou-se num roupo felpudo. A cama nunca antes estivera to convidativa. Agora, 
se sua tia ao menos a deixasse em paz algumas horas, para ver se conseguia dormir... Rolou de lado e encolheu-se toda, mergulhando, exausta, em sono profundo. 
      Uma batida persistente na porta acordou-a algum tempo depois. 
      - Oi! respondeu, tentando abrir os olhos. 
      - A Tricia est ao telefone, disse tio Bob pela porta fechada. Quer falar com ela?
      Cris se ergueu, firmou-se no cotovelo e disse: 
      - Claro. Estarei a num minuto. 
      - Estou com o telefone na mo. Quer que eu leve para voc? 
      - Claro, obrigada. 
      Bob entrou no quarto dela e, antes de entregar-lhe o telefone sem fio, disse baixinho:
      - Posso trazer-lhe o caf? 
      Cris sorriu e acedeu a seu bondoso tio. 
      - Sim, muito obrigada. 
      Ele deu uma piscada e desceu, fechando a porta atrs de si. 
      - Trcia? 
      - Ol! O que foi que acabei de ouvir? Voc vai ganhar caf na cama? Voc nunca me disse que tinha um escravo particular! 
      - Meu tio  assim, Trcia. Voc o conhece; ele me paparica, e eu deixo. Acredite, hoje estou um beb necessitado de colo. 
      - Olhe a! A tarde j vai se aproximando. Como pode estar carente se ainda est na cama? 
      Cris contou-lhe o encontro que tivera de manh cedinho, na praia, tendo o cuidado de escolher bem as palavras, j que Ted e Trcia eram muito bons amigos. 
Por alguma razo, no parecia mais o fim do mundo como algumas horas atrs. 
      - O Ted me ligou faz uma hora. Nem me disse que tinha estado com voc. 
      Est vendo?  corno a Helen disse. Eu  que estou sofrendo muito mais do que o Ted. Ele est agindo como se nada tivesse acontecido. 
      - Mas sabe, ele no me parecia estar completamente normal. Quero dizer, parecia estar entusiasmado porque vai para Oahu, mas no estou completamente convencida 
dessa animao toda. Provavelmente ele vai se animar mais assim que comear. Ele vai embora amanh. Contou pra voc? 
      - Sim. 
      - No sei por que, mas de alguma forma, acho que  a melhor coisa pra ele no momento, e no acho que ser por causa de voc e do Riek. Ele fala sobre essa 
turn de surfe desde que o conheci. Acho que  o tipo de coisa que a pessoa tem de fazer quando pinta a oportunidade. Ele tem de botar isso tudo pra fora. 
      - , eu deveria estar feliz por ter surgido essa oportunidade pra ele, disse Cris. 
      Tricia fez uma pausa e depois disse: 
      - Ele me falou que est contente por voc estar saindo com o Rick. 
      Cris pensou que j tivesse esgotado todas as suas lgrimas, mas no era assim. Uma nova "fonte" comeou a jorrar, e ela abriu o corao para a amiga. 
      Naquele instante Bob bateu  porta e disse: 
      - Vou deixar a bandeja aqui fora. Pode pegar quando quiser. 
      Cris tampou o telefone com a mo e gritou "obrigada" para o tio. Limpou os olhos, assoou o nariz. 
      - Escute s. Estou pssima 
      - Tem acontecido muita coisa em pouco tempo, no lhe dando condio para "digerir" tudo. Diante das circunstncias, voc at que est indo bem. 
      - Mas estraguei por completo meu relacionamento com o Ted 
      - De jeito nenhum. O Ted no larga os amigos assim, assim, no. Ele nunca dar as costas a voc. Lembre-se, no  como se tivessem "acabado um namoro" - afinal, 
nem tinham nada pra acabar. Sua amizade s entrou em outro estgio. Como ele disse, voc est mudando, vocs esto dando espao um ao outro pra crescer. 
      - Como? Como  que eu estou ajudando ele a crescer? Foi ele quem me disse pra crescer!
      - Ainda no entendeu? Se voc no tivesse vindo com o Rick ontem  noite, o Ted talvez no tivesse resolvido fazer a turn de surfista. A oportunidade poderia 
ter passado por ele e dentro de alguns anos ele teria se arrependido. 
      - Trcia, voc s est dizendo isso pra me consolar. 
      - Ah ? E estou conseguindo? 
      - Nada mau. Pelo menos conseguiu me fazer rir, Espere s um instante. Vou pegar meu caf, que est no corredor. 
      Cris levou para a cama a bandeja de frutas, suco de laranja e uma broa de mirtilo* e enfiou-se debaixo dos lenis. Ela e Trcia ainda conversaram durante 
quase urna hora, e por fim desligaram. A Cris j se sentia recuperada e mais disposta a "soltar" o Ted. 
      ____________
      *Blueberry muffin: uma espcie de bolo, recheado com uma frutinha azul bastante cida, que lhe d um sabor todo especial. Muito tradicional nos Estados Unidos 
(N.da T.)
      
      Afinal de contas, ele fazia parte do seu passado, e agora era hora de ir em frente, embarcar num relacionamento de verdade, com um sujeito que a achava maravilhosa. 
Era bvio que o Ted no via as coisas desse jeito, ou teria tentado tom-la do Rick. Ted estava mais interessado em surfe do que nela. 
      Vestindo um jeans cortado e uma camiseta sem mangas, Cris foi para o ptio dos fundos. Marta estava sentada  sombra do enorme guarda-sol de mesa, olhando 
um livro de receitas e fixando marcadores amarelos em certas pginas. 
      Puxando a espreguiadeira de lado, para olhar a tia de frente, Cris foi direto ao assunto. 
      - Desculpe sobre ontem  noite e hoje cedo, tia. Voc estava certa. Eu no devia mesmo ter sado sozinha. Prometo nunca mais fazer isso. Estou realmente arrependida.
      Marta suspirou: 
      - Suponho que isso tudo  parte do amadurecimento, querida.
      - , disse Cris, um pouco para a tia e um pouco para si mesma. Parece que hoje o meu problema  crescer, amadurecer. Sem perceber qualquer significado mais 
profundo nas palavras da sobrinha, Marta continuou: 
      - Eu e seu tio temo-nos esforado para ser tolerantes sempre que voc fica conosco. E at agora, voc tem sido bastante responsvel. Detestaria ver voc perder 
seus privilgios por causa de irresponsabilidade. 
      - Eu sei. Voc tem razo. 
      - Voc sabe que confiamos inteiramente no Ted. Ele tornou- se como um filho para o Bob. Mas no conhecemos o Rick, e embora o Bob diga que ele parece um jovem 
simptico, hoje em dia cuidado nunca  demais. 
      - Acabei de levar a bronca? 
      - No estou ralhando com voc, replicou Marta, parecendo ofendida. 
      - Sei, mas voc sabe o que quero dizer. Porque se voc estiver, quero perguntar uma coisa, disse Cris, protegendo os olhos com as mos para ver a reao da 
tia. 
      - Voc pode perguntar o que quiser a qualquer hora. Sabe disso. Sempre soube. E eu no estava ralhando com voc. 
      - Eu sei. 
      - Ento, qual a pergunta? 
      - Voc acha que tenho idade pra namorar? 
      - Com o Ted,  claro, respondeu Marta sem hesitar e voltou ao livro de receitas. 
      - Vai ser um pouco difcil namorar o Ted, pois estar viajando para o Hava amanh.
      - O qu? 
      A reao de Marta deu a Cris a certeza de que teria agora toda a ateno da tia. Levou mais de vinte minutos dando os detalhes e quando ela terminou, Marta 
disse: 
      - Por que no me contou tudo isso? 
      - Contei. Neste momento, 
      - Essas questes so muito srias para voc resolver tudo sozinha. Devia ter-me falado sobre o Rick ontem  noite, quando chegou. E por que no disse que esteve 
com o Ted de manh na praia? Cris, voc precisa ter algum com quem conversar sobre essas coisas, e quando sua me no estiver por perto, voc sabe que sempre pode 
me procurar. 
      - Eu sei. Por isso estou aqui. E ento, o que acha? Tenho idade pra namorar firme? 
      - Sua me vai dizer que no. 
      - Eu sei. E por isso que estou perguntando a voc, replicou a garota. 
      Cris sentia que suas pernas comeavam a queimar no sol e mudou de lado. 
      - Voc se lembrou de passar o protetor solar? perguntou Marta. E esses so seus melhores shorts? No pode usar uma coisa dessa  noitinha quando o Rick vier 
buscar voc. 
      - Eu trouxe jeans e uma malha tambm, respondeu Cris. 
      Sabia que a tia no lhe daria uma resposta direta. Sabia tambm que Marta estava prestes a fazer alguma declarao. Era assim que ela assumia o controle da 
situao. Erguia as sobrancelhas e dizia algo em tom firme. 
      - E quanto s roupas para a escola? J tem bastante para quando as aulas comearem? Suponho que ainda no saiu pra fazer compras, no ? 
      - No. Nas primeiras semanas ainda faz calor e todo mundo vai de short. 
      Cris sabia o que vinha pela frente. J tinha sado com Marta muitas vezes. Mesmo que nem sempre gostasse do exagero da tia, ao comprar roupa, desta vez Cris 
sentiu-se contentssima com a idia de comprar algo novo para usar quando o Rick viesse busc-la. Ela nunca se sentira assim com o Ted, mas, em compensao, o Ted 
no era de reparar na sua roupa, ou de fazer comentrios, como o Rick. 
      A previso de Cris estava correta, Iriam sair s compras e Marta seria generosa como sempre. S tinham duas horas, e acabaram nem precisando de mais tempo, 
j que dinheiro no era problema. 
      Voltaram para casa com roupa suficiente para Cris usar o semestre todo. Ela se sentia animada com a idia de usar uma roupa nova em cada uma das prximas vezes 
que sasse com o Rick. 
      s cinco da tarde, a campainha tocou e Cris vestiu depressa o jeans novo. Era mais apertado e mais na moda que suas outras calas. Puxando-as e encolhendo 
a barriga para fechar o zper, ela se sentia como uma modelo. 
      Acolhendo sugesto de Marta, Cris, ao pentear o cabelo, o acomodou de lado, prendendo-o atrs com algumas travessas. Ela nunca o penteara desse jeito, e o 
novo penteado dava-lhe ainda mais uns ares de modelo. 
      Descendo a escada a galope, Cris esperava ver o Rick na entrada. Certa vez ele lhe dissera que gostava de v-la de vermelho, por isso vestia agora uma camisa 
vermelha, que combinava com a sapatilha nova. 
      Mas em vez do Rick, quem estava  porta, conversando com tio Bob, era a Alissa. 
      - Alissa! No sabia que voc ainda estava aqui de frias. E o seu cabelo! Est uma graa! 
      Quando Cris conhecera Alissa nas frias do ano anterior, o lindo cabelo loiro de Alissa estava comprido fazendo inveja em Cris e em mais meia dzia de garotas. 
Agora a maravilhosa cabeleira estava podada. Ela se virou para Cris ver como estava curto atrs. 
      - Gostou? Sou o novo "eu". Muita coisa mudou em mim neste ms que passou; por que no o meu cabelo? 
      - Voc est tima! Estou contente por v-la. Entre! 
      Cris conduziu-a at o sof felpudo da sala. Antes que pudessem sentar, a campainha tocou de novo. 
      - Eu atendo, disse Bob. 
      Cris sabia que desta vez seria o Rick. Estava ansiosa para v-lo e mais contente ainda por apresent-lo  Alissa. 
      O ano anterior tinha sido difcil para Alissa. Ela ficara grvida, mudara para a outra costa do pas, teve uma filha, entregou-a para ser adotada cerca de 
um ms atrs, e voltara para a Califrnia com a me. Foi ento que entregou seu corao a Jesus. Alissa realmente mudara muito. Cris queria que ela fizesse amizade 
com jovens crentes, inclusive o Rick. 
      - Ol, senhoritas! disse Rick ao entrar na sala e ver Alissa. 
      Quando Cris fez as apresentaes, Rick disse: 
      - Voc precisa ir a Escondido um dia desses. 
      - Teria de ser amanh, replicou. Vamos voltar para Boston semana que vem. 
      - Por que no vem conosco hoje  noite? sugeriu Rick. Seus pais no se importam se ela dormir na sua casa, no , Cris? 
      - No, claro que no. Seria timo, Alissa. Eu queria mesmo passar mais tempo com voc antes de voc ir embora. 
      - Obrigada, mas j tenho um programa. O Douglas telefonou, e eles vo dar uma festa de despedida, uma surpresa. E por isso passei aqui. O Douglas disse que 
voc estava aqui e pensei que pudssemos ir juntas. 
      - Despedida? perguntou Rick. 
      -  para o Ted. Ele vai amanh para o Hava cursar a faculdade e surfar, ou coisa parecida. De qualquer jeito, o Douglas est tentando arranjar uma festa e 
eu lhe disse que, se era para Ted, eu iria. J conhece o Ted. Rick? Ele  um cara incrvel. 
      - Sim, fiquei conhecendo. Ento, ele vai embora, hein? 
      E o rapaz deu um sorriso que Cris achou muito confiante. Ao mesmo tempo, foi um alvio para ela que ele tivesse ouvido a notcia da boca de outra pessoa. Provaria 
a ele que ela estava completamente livre. Se o Rick acreditava que o Ted fazia parte do seu passado, talvez a prpria Cris conseguisse acreditar na mesma coisa. 
      - Vocs no querem vir comigo? insistiu Alissa. 
      Rick parecia pronto a responder pelos dois do jeito que respondera ao Douglas na noite anterior, quando Marta fez sua entrada triunfal. 
      - Na verdade, disse a tia, para hoje temos outros planos. Tenho certeza que as duas podero se encontrar em Escondido outro dia, no acha, Cris? 
      - Claro. Eu lhe fao um mapa do caminho at minha casa, Alissa. Venha amanh a qualquer hora depois da igreja;* tipo uma hora da tarde, que tal? 
      _______________
      * Nos Estados Unidos, a escola dominical e o culto principal costumam ser pela manh e terminar depois do meio-dia. (N. da T.)
      Cris pediu licena para ir buscar um papel. Bob encontrou-a na cozinha. Ele pegara um bloco. Com um olhar um pouco preocupado, indagou: 
      - Tem certeza que quer deixar o Ted ir assim, sem mais nem menos? Marta me contou o que aconteceu hoje de manh na praia. No quer tentar acertar os ponteiros 
com ele? Eu poderia ficar aqui conversando com o Rick por um tempo, se voc e Alissa quiserem ir at a casa do Douglas.
      - No, s pioraria as coisas.  melhor assim. Verdade. Eu e o Ted sempre seremos amigos. Estou namorando o Rick agora, e no quero ser grosseira com ele e 
descart-lo, depois que ele viajou at aqui pra me buscar. 
      A cada palavra que dizia! Cris acreditava mais que estivesse certa. 
      - Tem certeza? 
      - Tenho. Voc vai gostar do Rick, depois que conhec-lo melhor. Verdade. 
      - Parece que sua tia vai cuidar disso. Ela fez planos para ns quatro jantarmos em Laguna. 
      Bob entregou-lhe o bloco e Cris fez depressa o desenho de um mapa. 
      - Obrigada. 
      - No agradea a mim! murmurou o tio. No tenho muita certeza de que estamos fazendo favor a voc. 
      Depois de acertar os planos com Alissa, esta despediu-se. Marta virou-se para Rick, e com sua voz mais doce disse: 
      - Espero que voc no se importe que eu tenha planejado um jantar para ns. 
      - Claro que no. Na verdade  bondade sua, D. ...
      - Por favor, me chame s de Marta. 
      Naquele instante, Cris percebeu que a tia ficou encantada pelo charme do Rick. Agora, s faltava Bob dar sua aprovao... 
      E esse foi o objetivo secreto de Cris durante o jantar. Mais de uma vez, ela tentou levar o assunto para algo que interessasse o tio Bob. Estava sendo meio 
difcil, pois Bob parecia estar sentindo demais o "fim" do romance com o Ted. 
      A comida no restaurante extico que Marta escolhera na Estrada da Costa Pacfica estava deliciosa. O ambiente, com a praia a poucos metros, era encantador 
e estar com Rick era um sonho. 
      Marta fez o que pde para manter a conversa animada. Cris participou dos esforos, apesar de achar que a tia estava agindo como se ela e Cris fossem colegas 
que haviam sado, cada qual com seu namorado, para jantar numa noite de vero. 
      Quando Rick terminou de comer, recostou-se na cadeira e descansou o brao no encosto da de Cris. Enquanto os quatro conversavam, Cris sentia o brao de Rick 
roar-lhe a nuca. Gostava dessa sensao de ser adorada. Era assim que desejava que fosse seu namorado. 
      - Que tal caminharmos um pouco? sugeriu Marta. A maioria das lojas daqui ainda est aberta. O que acham? 
      - Claro. Parece uma boa idia, disse Rick, pondo-se de p e oferecendo a mo a Cris, para que se levantasse. 
      Ela se sentia to segura colocando a mo na dele e sentindo os dedos dele envolverem os seus como um cobertor. Rick segurou firme na sua mo durante o passeio 
todo, e Cris estava gostando muito. S soltou-lhe a mo quando entraram numa loja de artigos de cermica e ele comprou um vaso. 
      - Aqui, disse ele, levando-o at o caixa e procurando a carteira. Voc vai precisar disso. 
      Ela riu com seu jeito impulsivo e ficou pensando o que ele queria dizer. O vaso tinha um jeito meio masculino, com listras eretas sobre uma base de cermica 
azul. Parecia artesanato, coisa da terra. Ela no o achou to bonito. 
      A misteriosa declarao do Rick s fez sentido quando voltaram para a casa de Bob e Marta e puseram todas as suas coisas no carro do Rick. No banco da frente 
havia um buqu de rosas vermelhas. 
      - Para quem so? perguntou ela timidamente depois que Rick ligou o carro. 
      - Para a minha namorada. 
      - So lindas, disse Cris, levando ao rosto as ptalas aveludadas. 
      - No to lindas quanto voc. Hoje voc parece minha rosa vermelha. J lhe falei o quanto voc ficou bem assim? Gostei do cabelo. No que deva sempre usar 
desse jeito, mas hoje est lindo. Faz voc parecer mais velha. 
      - Me faz parecer velha demais? Quer dizer, d impresso de que estou tentando parecer mais velha? perguntou Cris, de repente preocupada. 
      - No, de jeito nenhum. Voc est perfeita. Gosto quando uma garota se preocupa em se arrumar para o namorado. Mostra que ela gosta dele de verdade, e se importa 
como que os outros vo pensar dele quando sarem. Do jeito que voc se arruma, eu nunca ficaria envergonhado de que nos vejam juntos. 
      Sei que a inteno dele  que isso seja um elogio, mas pra mim no parece correto. Ser que ele est tentando me avisar que devo ter o cuidado sempre de estar 
bem vestida quando sairmos? Ainda bem que a tia Marta acabou de fazer urna contribuio de peso para meu guarda-roupa! 
      O carro do Rick deu uma parada, despertando-a do estado meio sonhador. 
      - Onde  que estamos? perguntou ela, olhando a escurido l fora. 
      - Veja l! apontou Rick, mostrando as lindas luzes do centro de Escondido. 
      - Pensei que estivssemos indo para a minha casa, disse Cris, espichando o pescoo e tentando disfarar o nervosismo da voz. Ns realmente devamos estar chegando. 
      - Est com dor no pescoo? Vire, aqui, eu massageio. 
      Cris virou-se e Rick massageou-lhe o pescoo, depois os ombros. Ela sentiu-se relaxar ao toque das mos dele. Ele se inclinou e lhe deu um leve beijo no pescoo, 
depois na face. Quando ele virou o seu rosto para beijar-lhe os lbios, ela se afastou e colocou as mos em defesa. 
      - Espere, falou. Espere. 
      Era a nica coisa que lhe vinha ao pensamento. 
      Rick manteve-se calado por um instante, enquanto Cris coordenava os pensamentos. Depois, rompeu o silncio. 
      - O que foi, Cris? O que h de errado? indagou com voz terna e paciente. 
      - As coisas esto acontecendo depressa demais. No estou preparada para isso. 
      Rick riu baixinho. 
      - Preparada para o qu? Eu s ia lhe beijar. Verdade. 
      Cris continuou na defensiva, as costas encostadas na porta, procurando avaliar suas abaladas emoes. 
      - Ei! No fique assim assustada. Sou eu, s eu, lembra? Rick, o seu namorado. No vou machuc-la. Venha c. Ele abriu os braos e deu-lhe um abrao terno. 
Sua mo acariciava-lhe a nuca e, aproximando os lbios do seu ouvido, cochichou:
      - Voc tem um cheirinho to gostoso!  to agradvel nos meus braos! Sabe h quanto tempo venho esperando para abra-la assim? 
      Ele virou o queixo dela para cima, e desta vez ela deixou que a beijasse. Mas no momento em que o fez, voltou a sbita friagem na boca do estmago. 
      Ela se afastou, mais devagar dessa vez. 
      - Desculpe, Rick. No estou me sentindo bem. Meu estmago di, e bem, no estou muito a fim disso. 
      Rick se afastou e bufou. Cruzando os braos, disse: 
      -  o surfista, no ? 
      - No, replicou Cris meneando a cabea e fitando-o nos olhos. Eu e Ted nunca fizemos isso. Eu j lhe disse. Eu e ele ramos bons amigos. S isso. Voc  meu 
primeiro namorado de verdade, e, bem, talvez eu no saiba agir como a namorada perfeita. Mas se voc for devagar e me der uma chance, tenho certeza de que me acostumo. 
Ainda  tudo muito confuso pra mim. 
      - Ento, disse Rick sorrindo de novo, eu lhe deixo com dor de estmago, hein? 
      Cris sorriu tambm: 
      - Voc sabe o que quero dizer. 
      Ele estendeu-lhe a mo, segurou a sua e apertou-a de leve. Todo o seu temor cedeu diante de uma sensao mais confortvel calorosa de proximidade. 
      - Vamos, "de matar". Vou lev-la pra casa.
      
      O Castigo
      6
      Minutos mais tarde, quando Rick e Cris pararam em frente da casa dela, Cris se perguntou que horas seriam, e se seus pais ainda estariam acordados. Rick carregou 
sua bagagem e as sacolas de compra at a porta da frente, enquanto Cris levava a bolsa, o buqu de rosas e o vaso novo.
       No momento que pisaram no alpendre, a porta se abriu e o pai de Cris, que estava atrs da telinha, parecia um urso furioso. No disse uma palavra, apenas 
abriu a tela e arrancou a mala de Cris da mo do Rick, que disse apressado: 
      - Boa noite, Cris, boa noite, Sr. Miller! e desapareceu, deixando a garota enfrentar os pais sozinha. 
      Ela entrou, buqu num brao, vaso no outro. 
      - Vou colocar essas flores na gua, disse, sentindo o olhar zangado da me a segui-la at a cozinha. 
      "11:47": marcava o relgio digital do forno de microondas. 
      Mas j  tarde assim! No  de espantar que eles estejam numa exploso nuclear! Eu devia estar em casa antes das dez, salvo em ocasies especiais. Se explicar 
com cuidado, talvez eles considerem esta ocasio como um dia especial. Por outro lado, talvez eu esteja mesmo numa enrascada daquelas!
      Colocou as rosas no vaso de qualquer jeito e deixou-as no balco da cozinha. Poderia coloc-las na mesa, mas nem isso conseguiria dar um ar festivo ao momento. 
      Com passos cautelosos, voltou  sala e sentou-se no sof, no lado oposto de sua me. Ali no era a casa de Bob e Marta, onde j podia simplesmente pedir licena 
e retirar-se para o quarto. Sabia que ia receber o maior sermo de sua vida. 
      A me foi para a cozinha: Cris ouviu-a fazendo caf. Aparentemente seria uma longa noite. Sozinha na sala com o pai, Cris quebrou o gelo: 
      - O tio Bob avisou que o Rick iria me trazer? 
      - No. Telefonei diversas vezes, falou o pai com voz spera que fez o corao da Cris bater mais forte. Finalmente consegui falar com ele s dez. Explicou 
que vocs saram para jantar e que voc saiu de l s 9:30. J  quase meia-noite. Onde esteve? 
      - Paramos um pouco pra conversar, depois o Rick me trouxe pra casa. No paramos por muito tempo. 
      - S conversaram? indagou o pai, o rosto comeando a avermelhar-se, assumindo uma tonalidade que no combinava com seu cabelo ruivo. 
      A me entrou e entregou uma caneca de caf fumegante ao pai. Com jeito preocupado, ela disse:
      - Cristina, no tnhamos a mnima idia de onde voc estava. Eu tinha preparado um jantar aqui para Bob e Marta, e vendo que vocs no apareciam e ningum 
telefonava, nem atendia ao telefone... ela comeou a engasgar, pensamos o pior. Voc tem idia das preocupaes que nos deu, a mim e a seu pai, hoje? 
      Cris abaixou a cabea. 
      - No, desculpe. Pensei que o tio Bob tivesse telefonado. 
      - Voc devia ter-nos telefonado, disse o pai. S porque tem idade para namorar no significa que pode sair a qualquer hora com qualquer pessoa que quiser! 
Voc ainda tem de nos perguntar antes de sair ou combinar as coisas. Entendeu? 
      - Sim. 
      O pai sorveu um gole de caf antes de falar duramente. 
      - Voc quer liberdade. Quer dirigir o carro sempre que quiser. Quer sair com qualquer um que quiser e vestir o que quiser. Se voc quiser liberdade, ter de 
demonstrar a sua me e a mim que tem responsabilidade. 
      Cris deu uma olhada de lado para a me que retribuiu o olhar com firmeza e voltou a tomar caf. 
      - Primeiro, voc foi de carro para o seu trabalho de babysitter trs vezes semana passada, e quando sua me foi fazer compras hoje, quase ficou na rua sem 
gasolina. Quando o carro est com voc, abastec-lo  responsabilidade sua. 
      - Mas o emprego acabou semana passada. J gastei o pouco que ganhei, e quando as aulas comearem, no vou ter dinheiro para abastecer 
      - Sim, vai. Voc vai arranjar um emprego. Eu e sua me conversamos sobre isso, e se voc quer dirigir, ter de arranjar um emprego que lhe d pelo menos o 
suficiente para a gasolina da semana. Em segundo lugar, continuou ele sem deixar a Cris a oportunidade de protestar, voc ter de pedir a aprovao de sua me ou 
a minha, antes de quaisquer sadas futuras. Ter de nos dizer onde vai, ter de estar em casa antes das dez, mesmo nos finais de semana, e temos de saber com quem 
voc vai sair para ver se aprovamos ou no. Entendeu? 
      - Sim, respondeu Cris, aliviada por no lhe terem tirado o privilgio de sair. 
      Ela e Rick poderiam estar em casa at as dez se sassem cedo. No mudaria nada. 
      - Seguinte: voc est usando pintura de spray em lugar das calas? No quero v-la vestida outra vez com isso. Est apertada demais para voc. 
      - Mas ela  nova! Marta comprou pra mim hoje. Est na ltima moda, pai. 
      - timo, disse o pai, se todo mundo est usando, voc no ter dificuldade em achar algum para dar as suas. Voc no vai usar, est claro? 
      Cris abaixou a cabea e olhou o seu jeans, lembrando-se de que algumas horas antes ela se sentia como uma modelo de revista nessa roupa incrementada. Agora 
se sentia ridcula. Uma coisa era o Rick notar suas roupas; outra completamente diferente era o pai notar.
      - ltimo ponto: voc est de castigo por duas semanas por causa de sua irresponsabilidade de hoje. 
      - Norton? disse a me baixinho. Pensei que tivssemos combinado uma semana. 
      Ele virou a xcara de caf para tomar o ltimo gole. 
      - Uma garota que chega em casa vestida desse jeito merece duas semanas de castigo. 
      A me baixou a vista, pousando-a na xcara, o que significava, Cris sabia, que ela no iria insistir mais na questo. 
      - Ns a amamos, Cris, concluiu o pai. Voc sabe disso. Mas no podemos dizer que estamos contentes com as decises que anda tomando ultimamente. Ns nos interessamos 
por voc e no vamos deix-la fazer pouco de sua prpria virtude assim to facilmente.
      Essa ltima frase, "fazer pouco de sua prpria virtude", perturbou a Cris durante sua longa e irrequieta noite de sono. 
      O que  que ele quer dizer por "virtude"? Ser que ele acha que estou fazendo alguma coisa errada com o Rick? Ou que minhas roupas so imprprias? Eu at que 
sou muito recatada em comparao com as minhas colegas. Ele morreria se visse as roupas que elas usam!  exatamente o que  virtude? como  que eu estaria fazendo 
pouco dela?
      No dia seguinte, quando toda a famlia voltou da igreja, Rick telefonou para pedir desculpas por no ter-se encontrado com ela no culto. Disse-lhe que a sua 
famlia tinha sado para um brunch* de despedida antes que ele partisse para a universidade. Cris explicou rapidamente que estava de castigo e que tinha de desligar 
o telefone.
      _________________________
      *Brunch: uma mistura de "breakfast and lunch". ou seja, caf da manh e almoo, sendo urna refeio no fim da manh que alguns restaurantes servem em domingos 
e feriados. (N. da T.) 
      - Que chatice! E o que  que vou fazer nos prximos dois fins de semana? reclamou o rapaz. Eu vou a. Vou convencer seu pai a mudar de idia. 
      - No, Rick, voc no conhece o meu pai, S iria piorar as coisas. 
      - Cris? gritou a me da cozinha. Preciso de sua ajuda no almoo.
      - Tenho de desligar Rick. Sinto muito. Converso com voc mais tarde. 
      - Quando? Se no posso telefonar nem sair com voc, como  que vamos conversar? 
      - No sei. Sinto muito. Tenho de desligar. Vamos arranjar um jeito. Vai dar certo. Voc vai ver. 
      - , vai dar tudo certo. No fique preocupada, Cris. Vai dar tudo certo. 
      Uns dez minutos mais tarde, quando se sentavam diante de um sanduche de atum com queijo derretido e salada, Rick apareceu na porta da frente. Como fazia calor, 
a porta estava aberta e todos puderam ver o rapaz de p, ao lado da porta de tela. 
      - A Cris est de castigo, Rick, disse o pai dela sem se levantar da mesa. Portanto no poder encontrar-se com voc durante duas semanas. 
      Cris sentiu como se fosse uma criana de cinco anos cuja melhor amiga tivesse vindo brincar, mas fora mandada embora. 
      -  sobre isso que eu queria conversar com o senhor.  o seguinte, como vou para a faculdade na tera-feira, queria saber se o senhor reconsideraria a deciso 
e me permitiria sair com a Cris hoje  noite. 
      - No. 
      - Bem, no  exatamente "sair". Pensei em lev-la para fazer uma visita a meus pais. O senhor permitiria? 
      - No. 
      Rick no conhecia o pai da Cris como ela, seno teria desistido no primeiro "no". Mas o pobre rapaz ficou l e tentou pelo menos umas cinco estratgias diferentes 
antes de ir embora com cara de cachorrinho triste: 
      - Tchau, Cris. Felicidades no novo ano letivo. 
      Ela estava arrasada e furiosa com o pai. s vezes ele no dava a mnima pelos sentimentos dos outros. O que ser que sua me vira nele, afinal? 
      Remexeu na comida, comendo apenas o queijo e um pouquinho de salada. Estava para pedir licena quando outro carro parou em frente de sua casa e uma garota 
de cabelo loiro veio correndo at a porta.
      Ah, no!  a Alissa. Esqueci completamente que ele vinha hoje. 
      - Me, disse Cris.  a Alissa. Eu a convidei pra vir aqui antes de saber que estaria de castigo. Ela veio de carro l de Newport. Vai voltar pra Boston esta 
semana e provavelmente hoje  o nico dia que poderei v-la! 
      - Ol? gritou Alissa, batendo na armao de madeira da porta de tela. Oi, gente! 
      - Est bem, disse o pai. Tudo bem. Mas vo ficar aqui. No podem ir a lugar nenhum. 
      Apesar do tom rspido, Cris percebeu que na verdade ele no achou ruim que a Alissa tivesse vindo visit-la. 
      - Entra, entra, disse o pai, levantando-se para abrir a porta. Voc deve ser a moa que vai mudar para Boston. 
      - Sim, sou a Alissa. Prazer em conhec-lo, Sr. Miller. 
      Ela estava bonita com o rosto bronzeado, e perdera um pouco das gordurinhas da cintura que acompanharam a gravidez. 
      Cris levantou-se e apresentou Alissa a sua me e a seu irmo David. At o momento, o garoto estivera quieto observando calado os acontecimentos do comeo da 
tarde. De repente, rompeu o silncio. 
      - Por que a Cris pode receber as amigas mesmo estando de castigo? No  justo!
      Alissa olhou sem graa para a Cris. 
      - Cheguei numa hora imprpria? 
      A Sr Miller interferiu: 
      - No, de jeito nenhum. Vocs, meninas, podem ir para o quarto da Cris. 
      Cris, automaticamente, comeou a tirar a mesa. 
      - Pode deixar. Eu cuido disso, disse a me. 
      - Isso tambm no vale! resmungou David. Quando  a minha vez, sempre tenho de lavar a loua! 
      As garotas se retiraram para o quarto de Cris e fecharam a porta. Cris se jogou de bruos na cama. Com os braos abertos, gritou: 
      - Aaaaagh!
      - Mau dia? perguntou a amiga, sentando-se delicadamente ao p da cama. 
      Cris falou sem parar durante vinte minutos; Alissa, pacientemente, deixou que ela se queixasse  vontade sobre seu dilema com o Ted e o Rick, seus pais, o 
castigo e a necessidade de procurar um emprego. 
      Quando Cris, finalmente, parou para respirar, Alissa disse: 
      - Voc no sabe a bno que tem 
      - Bno? 
      Ela se lembrou da "bno" do Ted, mas isso, no momento, no ajudava muito. 
      - Sim, voc  que  feliz, disse Alissa. Quando o meu pai morreu h um ano e meio, eu no tinha restries, podia fazer o que quisesse. E fiz. Quem me impediria? 
Minha me alcolatra? Ningum jamais me disse: "No, voc no pode fazer isso. Eu gosto demais de voc, e no vou permitir que estrague o seu futuro desse jeito." 
Eu queria ter tido naquela poca o que voc tem agora. 
      Cris caiu em si imediatamente. 
      - Nunca pensei nisso desse jeito. 
      - E o que vai fazer a respeito do Rick? 
      - O que voc quer dizer? 
      Cris estava mais preocupada em arranjar um jeito de sair do castigo e conseguir um emprego. Rick era o menor de seus males. Dentro de duas semanas, eles poderiam 
retomar seus contatos e Cris j imaginava que eles dariam mais valor um ao outro depois da separao. 
      - Voc vai acabar com o Rick? perguntou Alissa. 
      - Por que eu haveria de terminar com ele? 
      Alissa respondeu com outra pergunta: 
      - E por que voc est namorando ele? 
      - Bem, porque somos amigos h tempos, e agora que posso namorar, esse  o passo seguinte no nosso relacionamento. Alm do mais, sempre quis um namorado. E 
o Rick  super legal. Ele gosta muito de mim. Eu seria louca se terminasse e abrisse mo de tudo por nada. 
      - Cris, disse Alissa com delicadeza, sei exatamente o que voc est dizendo e como  gostoso a gente ter um namorado,  ser amada e desejada, e tudo mais. Mas 
escute: isso no vai preencher seu corao. 
      - Eu no estou tentando preencher meu corao. Estou tendo um relacionamento normal de jovem com um cara realmente legal. S isso. 
      - Est certo, Alissa aprumou-se, ajeitando a postura. Ento posso lhe pedir urna coisa? Promete? 
      - O qu? indagou Cris, comeando a achar tudo uma piada. 
      Alissa, de to compenetrada, tomou sua mo direita. 
      - Prometa que no vai fazer mais do que beijar e beijos leves, com o Rick ou com qualquer outro sujeito com quem venha a sair. Prometa isso. 
      - Alissa. isso no  problema, disse Cris. No pretendo me envolver fisicamente com ningum enquanto no me casar. 
      - E sexta-feira  tarde voc no planejava namorar o Rick, no  mesmo? 
      - Bem, no. 
      - Mas voc deixou o Rick convenc-la a entrar num relacionamento para o qual no estava muito predisposta, e parece que ele a pressionou a dizer sim. 
      - Talvez um pouco de presso, mas Alissa, namorar firme no  o mesmo que envolver-se fisicamente. 
      -  o primeiro passo, replicou Alissa. E se voc disse sim para o namoro quando essa era a idia do Rick, voc poderia acabar cedendo tambm aos limites do 
contato fsico imposto por ele mesmo. Esses limites, quem precisa imp-los  voc, Cris. Eu tenho uma razo especial pra insistir nesse assunto e voc sabe disso> 
Minha maior preocupao  por ver voc procurando um rapaz que encha o seu corao: primeiro o Ted, depois o Rick. Um rapaz nunca vai conseguir preencher todas as 
suas necessidades.  preciso que voc queira a Deus de todo o corao, de toda a alma, de toda a fora, de toda a mente. Enquanto tiver outra pessoa enchendo seu 
corao e sua mente, voc no estar amando Jesus do jeito que estaria se ele fosse tudo que voc deseja. 
      Agora Cris estava ficando zangada. 
      Por que logo voc est me passando um sermo desse? No fui eu mesma que levei voc a aceitar Jesus h apenas um ms? Por que agora esse amadurecimento espiritual 
to repentino, to automtico? 
      Em vez de dizer o que sentia, Cris forou um sorriso e disse: 
      - J vi que voc andou sondando a alma durante esse ms que passou.
      - Na verdade andei lendo. Terminei o Novo Testamento e comecei o Antigo. 
      - Voc leu o Novo Testamento inteirinho? 
      - Claro, e voc no? 
      - Sim, quer dizer partes, e partes do Antigo Testamento tambm. 
      Quando Alissa se despediu, duas horas mais tarde, Cris deu- lhe um abrao e disse: 
      - Obrigada pelo conselho. 
      E estava sendo sincera. Apesar de ter sido duro enfrentar a franqueza de Alissa, sabia que ela falava de corao. Mas quando procurava entender tudo que acontecera 
naquele tumultuado final de semana, acabou com uma tremenda dor de cabea pelo esforo. Tomou uma aspirina, pulou na cama e esperou que na semana seguinte tivesse 
calma para trabalhar e resolver todos os seus dramas e pensamentos.  claro que teria calma, ela se lembrou. Estava de castigo.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Uma Tartaruga e um Coelho
      7
      - Olhe aqui, Cris! Exclamou Katie com o jornal na mo.
      Seu cabelo ruivo balanava enquanto ela se encaminhava at a mesa do refeitrio da escola, onde a Cris tinha acabado de se acomodar.
      - Ol!
      Katie sentou-se do outro lado da mesa, e chegou o jornal perto do rosto da amiga.
      - Esperava encontrar voc no nosso lugar de sempre. Como est indo seu primeiro dia de aula?
      - Tudo bem. O que h no jornal?
      - Achei um emprego pra voc. Outro dia na igreja voc disse que seus pais queriam que arranjasse um emprego, e aqui tem uma oferta perfeita.  at no shopping.
      Cris leu silenciosamente o anncio que Katie tinha destacado. Olhou para ela e perguntou:
      - Numa loja de animais?
      - Claro! No entendeu? Diz: "Precisa ter experincia com animais". Voc no foi criada com um monte de animais?
      - A maioria das fazendas de gado leiteiro do Wisconsin tem outros animais domsticos, sim.
      - Est vendo? Voc , naturalmente, a pessoa certa! Ligue pra eles depois das aulas. Aposto que eles a contrataro pelo telefone.
      Katie abriu seu saquinho de lanche, examinou o contedo e perguntou:
      - Voc trouxe alguma coisa mais interessante que sanduche de Amendocrem com gelia?
      - Quer a minha ma? Ofereceu Cris.
      - No, obrigada. Eu no como nada que no pertena a um dos quatro grupos bsicos de alimentos: acares, gorduras, conservantes ou sabores artificiais.
      Cris riu-se e percebeu ento que no sorria havia j alguns dias. No tivera notcias do Rick desde o incidente com o pai dela  porta de casa. Longe dele 
tudo parecia sombrio.
      Conversou com a me sobre a idia de trabalhar na loja de animais, e depois telefonou pra l. O gerente parecia jovem e apressado. Pediu que ela comparecesse 
pessoalmente para preencher uma ficha e perguntou se ela tinha transporte confivel e se poderia trabalhar s sextas-feiras  noite. Ela respondeu que sim para as 
duas perguntas.
      -  possvel comear nesta sexta-feira?
      Ela lembrou-se do "castigo" e replicou:
      - Acho que sim. Vou verificar e telefono depois.
      - Se voc vier por volta das sete, hoje, poder preencher a ficha e me dar a resposta.
      - Est bem, obrigada, disse e desligou.
      Em seguida, virou-se para a me:
       - Acho que eles vo me contratar. Tenho de ir l hoje s sete da noite. Pode ser?
      - Creio que sim. Perguntaremos ao seu pai quando ele chegar. Ele ainda se mostra muito firme com relao ao seu castigo.
      - Eu sei, mas ele queria muito tambm que eu arranjasse um emprego. Se eu no for l hoje, eles podem contratar outra pessoa.
      Sem muita discusso, o pai de Cris concordou em lev-la at o shopping. Antes de entrarem na loja, ele disse:
      - Lembre-se de manter boa postura, fale com clareza, e faa de conta que no estou aqui.
      Era fcil atender s duas primeiras instrues, mas fazer de conta que ele no estava ali era impossvel.
      Que vergonha! Pensou enquanto se aproximava do balco. E se eles descobrem que ele veio comigo? Podem nem querer me contratar. 
      - Pois no! Falou o moo que estava trs do balco.
      Parecia ter uns vinte e oito anos. Tinha uma aparncia rstica, bem ligado  terra. Seu cabelo escuro estava puxado para trs num rabo de cavalo. Cris j 
estava  se acostumando a ver rapazes de rabo de cavalo na Califrnia. Mas notou que o cabelo dele estava amarrado com aqueles araminhos de fechar embalagens de plstico.
      - Telefonei hoje  tarde sobre o emprego, e Jon me disse para vir aqui preencher uma ficha.
      - timo. Eu sou Jon. Voc  Cris, certo?
      Ele parecia surpreso com a aparncia de Cris. Achou que devia ser o vestido. Sua me insistira para que ela fosse de vestido para dar uma boa impresso. Ao 
lado das aves exticas, Cris sentia como se estivesse procurando um emprego para servir ch, e no para vender areia higinica para caixa de gatinhos.
      - Pode ir l atrs e preencher a papelada. Sabe o nmero do seu seguro social?* perguntou, conduzindo-a para uma mesinha nos fundos, atrs dos aqurios de 
peixes tropicais.
      ____________
      *Equivalente a carteira de trabalho nos Estados Unidos, (N.da T.)
      
      - No me lembro.
      - Tudo bem. Ento traga sua carteira no primeiro dia.
      Ele a deixou sozinha com uma caneta e um questionrio de uma pgina. Nervosa, Cris preencheu o formulrio, lembrando-se da recomendao da me para que se 
esmerasse na letra de forma. Alm do nome, endereo, idade e nmero do telefone, no havia muito que pudesse preencher. As outras perguntas eram referentes  sua 
experincia anterior. A ficha parecia muito vazia. Cris preencheu apenas "baby-sitter" e deixou por isso.
      Ao sair da sala dos fundos, viu o pai fingindo olhar os peixes. Esperando que ele agisse como se no a conhecesse, Cris foi direto ao balco, entregando corajosamente 
a ficha ao Jon.
      - Baby-sitter, h? disse  Jon, olhando a ficha. E voc morou em fazenda?
      - Sim, no Wisconsin, at os quatorze anos.
      - Estou vendo que agora tem dezesseis.
      Ele deixou o papel no balco e foi  caixa registradora, atender uns fregueses. Era um casal de meia idade, que estava comprando uma coleira de gato, azul, 
e cheia de pedras brilhantes. Cris sorriu educadamente para eles, que retriburam o cumprimento. Em seguida pegaram o embrulho com Jon e saram.
      - Ento, tem alguma experincia com caixa registradora?
      Ainda sorrindo, Cris fez que no.
      - No tem importncia.  tudo computadorizado. S tem de saber ler e apertar algumas teclas. S isso. O computador pensa por voc.
      Jon virou o formulrio de solicitao de emprego e se ps a escrever no verso enquanto verificava:
      - Voc pode trabalhar s sextas das quatro s nove da noite, certo? E nos sbados, das onze s seis?
      - Claro. Est timo.
      - Excelente! Respondeu Jon. Eu a vejo sexta-feira s quatro. Ah! Talvez voc se sinta melhor usando jeans. Costumamos usar roupas mais informais aqui. Certa 
vez, uma garota que usava um vestido estampado com flores surpreendeu os coelhinhos mordiscando sua roupa. Pensaram que estavam num jardim.
      Cris sorriu, respondeu que sim e agradeceu, saindo depressa com vergonha de estar de vestido. Seu pai seguiu-a e parecia satisfeito com ela. Fez-lhe vrios 
elogios que at certo ponto compensavam a insegurana que de repente ela sentiu ao pensar que tinha acabado de ser contratada para seu primeiro emprego.
      - No disse? Observou Katie no dia seguinte. Sabia que o emprego era perfeito pra voc. Eles no conseguem muita gente que tem experincia com animais por 
aqui, que esteja disposta a trabalhar nos finais de semana ganhando salrio mnimo.
      - timo. Isso me faz sentir que sou a nica pessoa suficientemente burra para aceitar esse emprego.
      - Estou s brincando! Voc vai se sair muito bem. Provavelmente vai se divertir no trabalho. Qualquer dia desses vou visit-la e voc me vende um osso de cachorro 
ou coisa parecida. Ento quando sai do trabalho?
      - s nove. Tenho de ir direto para casa por causa do castigo.
      - Bem, espero que voc e o Rick tirem uma lio disso tudo. Agora vamos ter de adiar nossa festa anual de camisola por mais duas semanas, at acabar seu castigo.
      - Onde vai ser? Perguntou Cris, lembrando-se da festa do ano anterior, quando comemoraram a volta s aulas.
      Naquela noite elas tinham "empapelado"* a casa do Rick. Como era nova na escola, no fazia a mnima idia de quem era ele. Foi assim que o conhecera.
      _____________
      *Uma brincadeira comum nos Estados Unidos. Os jovens,  noite, vo  casa de algum e penduram papel higinico nas rvores e arbustos do quintal da frente, 
procurando fugir antes de serem descobertos. (N.da T.)
      As colegas tinham largado Cris para trs e ela se escondeu nos arbustos. Quando Rick veio tirar o papel, ela saltou fora do seu esconderijo e desceu a rua 
correndo, com o Rick atrs dela. As garotas voltaram com o trailer para busc-la, e Cris entrou no veculo antes do Rick conseguir peg-la.
      - Al! Disse Katie, sacudindo a mo em frente aos olhos de Cris. Voc estava viajando pra onde?
      - Ah! Estava me lembrando da nossa festa o ano passado. Foi uma festa e tanto!
      - Foi mesmo, disse Katie, compartilhando a lembrana.
      - Lembra que o  Rick lhe perguntou quem eu era?
      - Lembro. Ele correu atrs de voc o ano inteiro. Deve estar bastante contente agora, que conseguiu "peg-la".
      - O que voc quer dizer com isso?
      - Bem, na minha opinio, Rick  o supra-sumo do competidor. Lembra da assemblia dos prmios quando ele se formou? Ele ganhou medalhas em quase todas as modalidades 
atlticas.
      - E da? Ele  esportista por prazer.
      - Ele gosta de desafios. E voc foi o desafio mximo. Foi a nica coisa que ele no conseguiu ganhar enquanto estava no Colgio Kelley.
      - Ora essa, Katie! Voc est exagerando. O Rick  muito legal e eu me sinto honrada por ele querer me namorar.
      Katie abanou a cabea e um sorriso de deboche passou por seu rosto.
      - O que foi, Katie?Que  que voc est pensando?
      A sineta tocou, avisando que acabara a hora do almoo. Era o fim tambm da discusso. Katie levantou-se depressa e respondeu:
      - Voc mudou, Cris. Seis meses atrs voc nunca teria dito essas palavras. Mas, puxa, ns todas mudamos. No h nada de mal nisso. Vejo voc aps as aulas, 
l no seu trabalho novo.
      Katie correu em direo ao ginsio de esportes, deixando Cris a ponderar sozinha, sobre a conversa a caminho de sua aula.
      Ns todas mudamos. Verdade. E da se mudei de opinio sobre o Rick? No estou fazendo nada de errado. Por que  que a gente no pode se divertir sem que todas 
as amigas e os familiares fiquem tentando nos fazer sentir mal? Eles no esto me dando uma chance, e nem a oportunidade ao Rick.
      Conforme sua palavra, Katie chegou na loja de animais poucos minutos depois que Cris chegou para o trabalho. A garota estava na caixa registradora e Jon lhe 
ensinava a operar aquela mquina maravilhosa computadorizada. Cris no queria ter problemas no primeiro dia de trabalho, com amigos a distra-la, e fez de conta 
que no viu Katie entrar.
      - Com licena, disse Katie, fazendo papel de fregus. Onde ficam os ossos de cachorro?
      - Segunda fileira, perto dos fundos, respondeu Jon rotineiramente, continuando ento a instruir Cris sobre como se opera a caixa.
      Cris lembrou quase tudo que Jon lhe explicara, e respondeu corretamente a maioria das perguntas de verificao, que ele fez. Katie chegou ao balco com di 
ossos nas ,aos e disse:
      - Por favor, ns temos um poodle e eu gostaria de saber de qual desses ossos ele ir gostar mais.
      Cris precisou de um tremendo autocontrole para no cair na gargalhada e acabar com a farsa. A amiga, no entanto, parecia no precisar fazer nenhum esforo 
para ficar sria.
      - Qual deles voc recomendaria, Cris? Indagou Jon, entregando-lhe a "freguesa".
      Ela pigarreou duas vezes, e respondeu:
      - Provavelmente o maior.
      - timo, disse Katie. Ento levo o menor. Tirou uma nota de cinco dlares da bolsa e entregou a Cris.
      Cris olhou para o Jon, que disse:
      - Registre voc mesma. Lembra qual o boto que voc aperta primeiro?
      Cris lembrou-se. Tentou no prestar ateno a Katie e pensar em cada passo no funcionamento da caixa registradora. Deus certo. A gaveta abriu quando deveria, 
e na tela apareceu o valor do troco certo devido, que ela deu a Katie sem olhar direito para ela.
      - Voc vai se dar muito bem aqui, Cris, disse Jon. Vou l para os fundos. Se precisar de mim, aperte este boto, concluiu, mostrando-lhe um boto vermelho 
embaixo do balco.
      Assim que ele ficou fora de vista, Cris relaxou os msculos faciais e disse:
      - Voc quase me fez ser despedida.
      Katie riu baixinho.
      - Sabe de uma coisa? falou. Mudei de idia. Posso trocar o osso?
      - De jeito nenhum! Ainda no sei fazer devolues. Procure um cachorro qualquer por a e d-lhe o osso de presente.
      - Por falar em cachorro, retrucou Katie com ar maroto, o que est acontecendo com o Rick?
      - Katie, isso  um golpe baixo!
      Cris sentiu voltar o ressentimento experimentado durante a conversa da hora de almoo. Katie no tinha o direito de ser to crtica.
      -  s brincadeirinha. Ele vem ver voc hoje?
      - No sei.  provvel que sim. Escrevi-lhe uma carta, contando sobre o emprego e tudo o mais.
      Ficou com vontade de acrescentar: "E o que voc tem a ver com isso?" Mas notou que o Jon vinha voltando para a loja. Ele chegou atrs do balco e pegou uma 
prancheta com uma pilha de papis. Notando a Katie parada ali, perguntou:
      - H algum problema?
      Se h! Cris teve vontade de responder. Minha melhor amiga est agindo como inimiga.
      - Sim, mudei de idia, disse Katie, voltando  sua voz teatral. Acho que o Poopsie no vai gostar deste osso. Quero meu dinheiro de volta.
      Calmamente, Jon colocou a prancheta no balco e disse:
      - Observe, Cris.  assim que se faz a devoluo.
      Apertou algumas teclas e, com a gaveta aberta, pediu que Cris contasse o dinheiro e o devolvesse  freguesa.
      - Obrigada! Disse Katie, sorrindo para o Jon. Sua balconista foi muito atenciosa. Vou recomendar a sua loja a todas as minhas amigas.
      No momento que ela saiu, Jon disse:
      - Espero que as amigas dela no sejam iguais a ela.
      Cris manteve a expresso imperturbvel. Afinal de contas, Katie merecia esse comentrio.
      - Venha aqui nos fundos, que vou ensinar-lhe a limpar as goiolas. Beverly, falou Jon chamando a outra vendedora, que estava estocando o alimento de peixes. 
Fique na caixa registradora.
      Durante a meia hora seguinte, ele ensinou  Cris a "difcil arte" de trocar jornal picotado de uma grande variedade de gaiolas. Na quinta gaiola, pensou:
      Mesmo tendo sido criada numa fazenda, no estou preparada para isso. Agora, talvez se eu tivesse vivido na arca de No...
      Em seguida aprendeu a reabastecer as prateleiras, o jeito certo de pegar os peixes com uma rede, e que marca de comida de cachorro estava na promoo. Jon 
no deu trgua durante o rpido treinamento sobre todos os aspectos da loja, e Cris interrompeu para fazer-lhe perguntas. Duas vezes, pediu que ele repetisse as 
instrues, porque havia detalhes demais e no dava para gravar tudo na primeira vez..
      - No se preocupe. Voc vai pegar o jeito. Agora, a ltima coisa que eu vou lhe mostrar  uma cobra.
      Cris fez uma careta.
      - Desde que eu no tenha de pegar nela, tudo bem.
      Jon riu-se de sua reao.
      - Ela no machucaria uma mosca. Uns dois roedores ou um coelhinho, talvez. Mas no uma mosca, falou e riu de sua prpria piadinha. Est aqui desse lado, trancada 
no viveiro.
      Cris ficou um pouco afastada enquanto Jon mostrava como se abria e trancava o tanque da jibia de cinco metros. Ela acenava que sim toda vez que ele perguntava 
se estava entendendo as instrues.
      - Mas vou ter de dar comida pra ela?
      - No. S eu cuido dela. Mas quero que fique de olho nessa tranca.  um tanque velho e de vez em quando aparecem crianas aqui e que tentam abrir. Acham graa 
deixar a jibia toda agitada.
      Jon verificou o relgio.
      - Agora voc poderia fazer um intervalo de quinze minutos? Quando voltar, eu saio para jantar.
      Cris resolveu gastar seus quinze minutos de intervalo no shopping, em vez de permanecer sentada  mesa da sala dos fundos. No momento que pisou no espao aberto, 
percebeu que o ar tinha um cheiro agradvel. Levou a camiseta ao rosto e percebeu que carregava consigo o forte odor de todos os animais da loja.
      Talvez eu deva ir a uma seo de perfumes de uma loja de departamentos e experimentar algumas amostrar!
      - Vai a algum lugar sem me levar junto? Perguntou uma voz forte atrs de Cris.
      Ela virou-se e encontrou o abrao do Rick.
      - Ol!Que bom ver voc! Exclamou correspondendo ao abrao. Depois se afastou avisando:  melhor no chegar muito perto. Estou cheirando a loja de animais.
      - Estou percebendo, disse Rick, levando-a at um banco para sentar-se. A que horas voc sai?
      - s nove. Estou tendo um intervalo de quinze minutos agora. Que h de errado? Voc parece chateado.
      - Voc vai trabalhar todas as sextas-feiras?
      - No comeo, sim. Esse era o horrio em que eles precisavam de algum. Pode mudar depois. Por qu?
      - Voc no pensou que teramos planos para as sextas? Indagou ele sem tentar esconder que estava zangado. Tem muitos empregos para depois das aulas! Voc no 
estava pensando direito quando pegou este. Agora todas as nossas sextas  noite esto furadas.
      - Rick, desculpe. Eu tinha de arranjar um emprego, este apareceu e...
      - E suponho que  o nico para o qual voc se apresentou. Puxa, Cris! Como  que foi fazer uma coisa dessas! Quer dizer, voc no acha que teria sido uma considerao 
da sua parte pelo menos conversar comigo a respeito?
      Cris no tinha como responder. Agora estava com medo de dizer que tambm estaria trabalhando aos sbados at s seis.
      Por que no pensei nisto antes? No acredito que ele esteja to bravo comigo assim!
      - Essa foi tima! Eu venho passar o fim de semana em casa, sabendo que minha namorada est de castigo por causa de uma bobagenzinha de no telefonar para os 
pais para avisar que eu a estava levando para casa. No posso falar com voc a semana toda, e seu pai no arreda nem um centmetro. E agora voc est trabalhando 
toda sexta-feira. Que porcaria, Cris! No  o jeito certo de comearmos o nosso relacionamento.
      - Eu sei, sussurrou ela, sentindo as lgrimas subirem aos olhos e depois rolarem pelo rosto. Desculpe. Vou ver se consigo mudar para alguma outra noite.
      - Por que est chorando? Indagou Rick passando o brao ao seu redore puxando-a para junto de si. Ei! Vai dar tudo certo. S que me pegou de surpresa. Voc 
vai conseguir mudar o horrio ou o emprego, ou alguma coisa.
      Ele ficou a abra-la por mais alguns instantes, enquanto enxugava as lgrimas.
      - Desculpe, mas j est na hora de voltar. Era pra eu ficar s quinze minutos.
      - Voc ainda tem um tempo, disse Rick, alisando o seu cabelo. Ainda no tive oportunidade de lhe dizer como senti sua falta esta semana. Pensei em voc todos 
os dias.
      - Eu tambm senti sua falta, disse Cris. Que bom que voc veio! Exclamou sorrindo, e limpou uma ltima lgrima. O meu rosto est bem?
      - Seu rosto est timo, disse ele, sorridente.
      - Voc sabe o que quero dizer. Estraguei a maquiagem?
      - S um pouquinho, neste canto, replicou o rapaz tocando de leve debaixo do olho esquerdo. Pronto, "olhos de matar". Agora est perfeita.
      - Ah! Que nada!
      - Para mim voc  perfeita. Vamos, eu volto com voc e voc me apresenta aos seus amigos animais. Exceto o seu gerente. J fiquei conhecendo.
      - Jon  bonzinho.
      - Certamente que . Se voc gosta do estilo zelador de zoolgico. Voc no gosta, gosta? Quer dizer, ele no est dando em cima de voc, est?
      - Rick, francamente, falou Cris, dando-lhe um soco de brincadeira no brao quando entraram na loja.
      - Calma! Estava s verificando. Na verdade, no estava muito preocupado achando que teria de competir com o Tarzan, no.
      Jon ouviu o ltimo comentrio do Rick, quando se dirigia para os fundos onde ia verificar os peixes tropicais. Cris foi para trs do balco e Jon apontou o 
relgio de parede s costas dele. 
      - Voc saiu s 5:30, Cris.
      Ela olhou para o relgio. J eram seis e cinco.
      - Esse relgio est certo? Eu estive fora tanto tempo assim? Parecia s alguns minutos. Desculpe! No vou fazer isso de novo.
      - Est bem. Tenho sua palavra sobre isso. Estou atrasado para o meu encontro. S voltarei por volta de 7:30. Beverly est l trs; se voc tiver algum problema, 
ela pode ajuda-la.
      - Certo. Obrigada. E mais uma vez, desculpe o atraso.
      Jon levantou a mo num pequeno aceno de despedida e saiu correndo.
      Um menino e sua me entraram na loja passando por ele. Foram direto ao balco e o menino disse:
      - Quero comprar uma tartaruga, e tem de ser menino.
      - Precisamos de ajuda, disse a me dele com doura.
      - Claro, disse Cris, apertando o boto de chamada, na espera de Beverly aparecer. Vamos atend-los num momento.
      Naquele momento, outro menino surgiu  frente com um filtro de aqurio na mo e perguntou:
      - Sabe se esse filtro vem com o carvo, ou tenho de comprar separado?
      - H? No tenho certeza. No diz na caixa?
      O menino leu o pacote e Cris apertou de novo o boto vermelho. Beverly veio pelo corredor. Com seu cabelo preto comprido numa trana nica e os pulsos cobertos 
de pulseiras de contas, Beverly parecia o tipo de jovem que, se tivesse vivido cem anos atrs seria mensageira do "Pony Express" (Expresso do Pnei).*
      ______________
      *Pony Express: um sistema de comunicao e correio, estabelecido no comeo do sculo dezenove, que atravessava os estado norte-americanos a cavalo, levando 
correspondncia e encomendas. (N.da T.)
      
      Cris explicou o que cada fregus queria  Beverly disse:
      - Eu cuido da caixa. Voc vai l atrs e pega a tartaruga. No, o carvo  separado. Est no final do ltimo corredor  direita.
      - As tartarugas esto aqui atrs, disse Cris, procurando dar a impresso de que sabia tudo muito bem.
      Talvez eu consiga perceber quais so os machos se eu pegar uns dois e olhar embaixo sem ele perceber.
      - Eu quero aquela, disse o menino parando em frente do viveiro onde estavam as tartarugas d'gua.
      - Temos tambm tartarugas da terra, disse Cris. Elas esto aqui perto dos lagartos.
      - Eu quero daquelas que sabem nadar. As que moram no esgoto. Quero esta aqui. Vou dar um nome pra ela. Tomara que seja macho.
      Cris e a me trocaram olhares, e Cris disse:
      - Meu irmo tem dez anos. Ele tambm  doido por tartarugas.
      Meio sem jeito, pegou uma tartaruga e as garras compridas do animal rasparam na sua mo. Olhou embaixo, mas no sabia distinguir o macho e a fmea. Enfiando 
a mo no tanque, pegou outra para comparar. Ainda assim no conseguia decifrar.
      - A da direita  macho, disse o Rick.
      Cris no sabia h quanto tempo ele estava ali, observando.
      - Sabe-se logo pelo peito, explicou ele. As com trax mais largo so machos. Se o casco  curvado para dentro,  fmea.
      - Obrigada, disse a me do menino, sorrindo para o Rick. Pode nos mostrar o que precisamos para alimenta-la e qual o tamanho do tanque que devemos comprar?
      - Sem problema, ofereceu-se Rick, conduzindo os trs pela loja, pegando o equipamento e a rao de tartaruga, dando instrues especficas sobre a temperatura 
da gua. Elas gostam de subir em cima de pedras grandes, prosseguiu ele. Acho que temos algumas aqui, deste lado.
      Cris percebeu o olhar satisfeito do Rick enquanto mostrava o melhor tipo de pedra. Deu ainda algumas dicas sobre deixar o tanque esquentar  noite antes de 
colocar o animalzinho nele, sugerindo inclusive dar-lhe um peixinho dourado vivo, semana sim, semana no.
      Com os braos cheios, a me e o filho colocaram a compra toda no balco. Beverly franziu as sobrancelhas e disse:
      - Suponho que descobriram qual era macho.
      - Os machos tm trax mais largo e cheio, explicou Cris, dando uma piscada para o Rick, que tinha acabado de se retirar para a seo de rao de passarinhos.
      Ele respirou fundo, estufou o peito de brincadeira e retribuiu a piscadela. Beverly voltou para a etiquetagem nos fundos, enquanto Cris preenchia a nota de 
venda da tartaruga, totalizando cento e doze dlares. A mulher entregou-lhe o cheque e comentou:
      - Meu marido vai ficar to surpreso! Tenho certeza que vai me falar sobre quando ele era garoto e eles apanhavam bichos de estimao no crrego, de graa.
      Assim que a me e o filho foram embora, Rick caminhou empinado at o balco e disse:
      - Tragam-me o prximo fregus. Eles no resistem, no  mesmo?
      Antes que Cris tivesse tempo de dar-lhe um tapinha pela arrogncia da brincadeira, um homem se aproximou, perguntando:
      - Pode me responder algumas perguntas sobre os coelhos?
      - Claro, disse Rick. Eu o ajudo.
      Foi com o homem at as gaiolas. Vinte minutos mais tarde Cris registrou uma venda de cento e trinta e quatro dlares de coelho e apetrechos.
      -  melhor voc ir embora antes do Jon voltar, disse Cris, olhando o relgio e vendo que eram quase sete e meia.
      - Por qu? Estou ganhando dinheiro para o cara. Ele devia me contratar para trabalhar aqui! replicou, dando um sorriso largo e completou: No se preocupe. 
J estou de sada. Na verdade, encomendei uma coisa, e quero ver se est pronta. Volto s nove para buscar voc.
      - Eu vim de carro.
      - Mas mesmo assim precisa de um guarda-costas para percorrer o perigoso estacionamento. Eu a vejo s nove, concluiu.
      Fez-lhe um aceno e saiu. No demorou um segundo, e Jon chegou da direo oposta.
      - Como foi? Algum problema?
      - No. Foi tudo bem, disse Cris, enquanto Jon ia verificar a caixa registradora.
      - No pode ser! Parece que voc vendeu quase trezentos dlares de mercadoria enquanto estive fora. O que vendeu?
      - Uma tartaruga e um coelho, disse Cris com um sorriso. E todos os acessrios possveis, mais raes para um ms.
      - Verdade? Veja s. Parece que acertei contratando voc. Continue trabalhando assim.
      
      
      
      
      
      A Opo Nmero Oito
      8
      - Venha c, minha namorada, disse Rick para Cris no estacionamento do shopping, depois de caminhar ao lado dela at seu carro. Esperei a semana toda por isso.
      Ele abriu os braos e envolveu-a num abrao caloroso.
      - Desculpe por ter ficado zangado naquela hora. No vai ser to ruim passar algumas sextas-feiras com voc vendendo tudo que tem na loja. E assim que acabar 
seu castigo, podemos ainda pegar uma segunda sesso de cinema.
      Cris afastou do ouvido aquela voz suave e resolveu contar-lhe as ms notcias de uma s vez.
      - Rick, mesmo depois que acabar essas duas semanas de castigo, ainda vou ter de chegar em casa antes das dez. E no tive oportunidade de falar com o Jon sobre 
a possibilidade de mudar meu horrio. Estou escalada pra trabalhar das onze s seis nos sbados.
      Rick soltou a mo dela e olhou-a com ar de incredulidade.
      - Voc concordou em trabalhar aos sbados tambm? O dia todo? O que  que estava pensando, Cris?
      - Eu preciso do emprego. J lhe disse.
      - timo! timo! Disse ele levantando as mos como se no quisesse mais ouvir falar do assunto. Continue com seu emprego e as duas semanas de castigo. Com isso 
voc deve ter tempo suficiente para resolver onde eu me encaixo em sua vida. Esperei demais a gente poder ficar junto e agora tenho de vencer todos esses obstculos 
que voc coloca no meu caminho!
      - Rick! Principiou ela tentando arrazoar, mas ele foi embora, deixando-a sozinha ao lado do carro.
      Ela dirigiu at sua casa, resistindo  vontade de chorar, e foi direto para a cama. Que confuso era sua vida!
      Na manh seguinte, chegou ao trabalho s 10:30, esperando poder assim compensar o prolongado intervalo do dia anterior.
      - Bom dia, Jon, disse animada.
      Vestia uma das roupas que Marta havia comprado para ela: short e uma camiseta florida, em tom pastel, e uma faixa no cabelo, a qual combinava com a blusa. 
Cuidou especialmente do cabelo e da maquiagem, esperando que o Rick viesse v-la e que sua raiva tivesse passado.
      - Verifique a entrega que chegou hoje cedo, disse Jon, indicando a saleta dos fundos.
      Ali, Cris encontrou uma grande gaiola de arame com trs adorveis cocker spaniel. Destravou a porta e pegou um de cor caramelo. O bichinho lambeu seu rosto 
e seu rabinho aoitava o ar com a velocidade de um batedor de clara.
      - Voc  a coisinha mais fofa que j vi!  igualzinho  nossa velha cachorra, Taffy.
      - Voc tinha um cocker?
      - Quando eu era menina. Ela era a maior gracinha. Ficava correndo entre as pernas das vacas quando a gente estava ordenhando.  um milagre que nunca tenha 
levado um coice.
      - Esses trs a so machos. Tm os documentos do pedrigree, e devem ser vendidos rapidamente. Quero que voc arrume a vitrina da frente para coloc-los l.
      Cris foi direto ao trabalho, preparando a vitrina para os animaizinhos e depois levou-os, um a um , ao lugar de exibio, e aquele de que Cris gostara foi 
vendido antes do meio-dia.
      - Cuide bem desse cachorrinho, disse Cris  menina que estava toda alegre enquanto o pai dela colocava a coleira e a correia. Tive uma cachorrinha igual a 
este, quando eu era pequena.
      - Como  que ela chamava? Perguntou a garotinha com um sorriso, exibindo a "janelinha" com falha de dois dentes.
      - Taffy, porque a nossa cachorra era dessa cor tambm, e achvamos que ela parecia puxa-puxa.
      - Pode dar o nome de Taffy pra ele, papai? Pode?
      - Como voc quiser, Raquel, replicou o pai, sorrindo com aprovao. Ele  todo seu.
      - Vem c, Taffy, chamou ela, batendo as palmas das mos abertas nas pernas. Vem c!
      O cachorrinho pulou no colo dela e lambeu o rosto da menina. Afinal o pai puxou a correia para faz-lo descer.
      - Ele j est gostando de mim! exclamou ela. Vem c, Taffy!
      Quando saram, formavam um grupo engraadinho: a menina ia correndo na frente, batendo nas pernas, chamando "Taffy", enquanto o cachorro corria atrs, seguindo-a 
e levando consigo o pai.
      - Outro fregus satisfeito, j vi, disse Jon, verificando o subtotal da caixa registradora. Parece bom, continuou ele, olhando o total de vendas. Agora voc 
pode ficar na caixa at a Beverly voltar do almoo, e a vai voc.
      Parecia que os fregueses entravam sem parar. Tanta agitao ajudava Cris a esquecer um pouco o Rick.
      Mas durante seu horrio de almoo, voltou a sentir solido. Foi at a praa de alimentao e ficou na fila para comprar um corn dog* e limonada. Enquanto comia, 
ficou olhando em volta, na esperana de ver o Rick. Viu algumas colegas de escola e uma famlia da sua igreja, mas nada do Rick.
      
       __________________
      *Corn dog: cachorro quente envolvido numa massa de po de milho. (N.da T.)
      O resto da tarde transcorreu de maneira mais lenta. Quando deixou o trabalho, s seis, estava cansada e desanimada.
      Depois do jantar, a me lembrou-lhe que era sua vez de arrumar a cozinha e dobrar as roupas que haviam sido lavadas. Cris realizou suas tarefas em silncio, 
mas com azedume.
      Finalmente, s oito, ficou livre para fazer o que queria. Vasculhou suas coisas no quarto  procura de sais aromticos "Rosa Vitoriana" e se entrgou ao luxo 
de um longo banho de banheira.
      A vida  dura, pensou, esfregando os braos para tirar o cheiro da bicharada. Os homens so to estranhos! De algum modo, eu queria que meus pais me tivessem 
deixado namorar s depois de completar dezessete anos. No, dezoito. Minha vida era to mais simples antes de eu tirar a carteira de motorista e comear a namorar! 
 horrvel ter permisso para as duas coisas com a mesma idade. S mais uma semana de castigo e, depois, quando o Rick e eu sairmos de novo, espero que tudo esteja 
bem entre ns. Tudo pode voltar a ser deslumbrante.
      A semana seguinte parecia ser devorada pelo monstro dos trabalhos de casa. Seu penltimo ano realmente ia ser mais difcil do que o anterior. Quinta,  noite, 
ela ficou at as onze lendo um livro para a aula de Literatura.
      Finalmente, desmoronou na cama, pensando:
      Queria que o Rick tivesse telefonado esta semana, apesar de no saber quando teria tempo de conversar com ele. Sinto tanto sua falta! Espero que ele me visite 
no trabalho amanh  noite.
      Pelas quatro da tarde de sexta-feira, a ltima coisa que Cris queria fazer era trabalhar. Sentia-se exausta e desejava dormir um pouco. Como dormira at mais 
tarde aquela manh, no tivera tempo de lavar a cabea antes de ir para a escola, e tivera de fazer um rabo-de-cavalo com um lao preto e branco que combinava com 
o short preto e a camisa branca bordada.
      Com poucos fregueses procurassem a loja, Jon mandou Cris trabalhar nos fundos, marcando preos nas latas de rao para gato. Ela no se importava, j que tinha 
de sentar-se no cho enquanto trabalhava. Mas preocupou-se de estar ali escondida sem poder enxergar o Rick, se ele passasse por l.
      Durante o intervalo, ela sentou-se fora, em frente da loja, e comeu uma barra de granola da loja de alimentos naturais do lado. Rick no apareceu.
      Que maluquice a minha ficar sentada aqui esperando o Rick! A Katie tinha razo. Seis meses atrs eu nunca faria uma coisa dessas. No que foi que eu mudei? 
Seja l o que for, no estou gostando muito. Acho que nunca me senti to sozinha ou to deprimida em toda a minha vida. Ser que o Rick tambm sente a minha falta, 
ou est to envolvido na faculdade que no est nem pensando em mim?
      Na parte da tarde, esse sbado foi uma repetio do anterior: cheio o tempo todo. Cris se consolou pensando que provavelmente o Rick no passara o fim de semana 
em casa sabendo que ela ainda estava de castigo. No dia seguinte, o castigo acabaria, e ento tudo mudaria.
      Segunda-feira  tarde Rick telefonou uns cinco minutos depois que ela chegou da escola.
      - Voc no est mais de castigo, est? Foram suas primeiras palavras.
      - Rick! Cris deu uma pirueta e trouxe o telefone para perto. Senti tanto  sua falta!
      - Posso resolver isso. Tenho permisso do quartel-gerenal para dar uma passada a?
      - Agora? Onde voc est?
      - Umas trs quadras da sua casa. Tentei peg-la na escola, mas cheguei atrasado.
      - Espere um minuto. Vou ver com minha me se est tudo bem. 
      Cris largou o telefone e aproximou-se da me com cautela:
      - O Rick est no telefone. Ele pode vir aqui? Acabou o meu castigo, e no tenho muito dever de casa. Ser que ele poderia ficar para o jantar?
      - Creio que sim. Vamos ter macarronada. Nada de especial. Ser que ele gosta?
      - O Rick adora comida italiana. Obrigada, me!
      Cris sentiu como se estivesse no ar ao zarpar pelo corredor e voltar ao telefone.
      - Claro, Rick. Minha me disse que est bem. E voc pode ficar pra jantar?
      - Provavelmente no. Tenho aula s sete hoje  noite, e tenho de sair da at s 5:30 pra chegar a tempo. J vou chegar a.
      - Eu o vejo dentro de alguns minutos, respondeu ela, colocando o fone no gancho e correndo para o guarda-roupa.
      Vestiu o seu short predileto com uma camiseta listrada. No era a roupa mais bonita, mas era sem dvida a mais confortvel. Com velocidade de um raio, deu 
uma arranjada na maquiagem e no cabelo.
      Rick, se eu soubesse que voc vinha, eu teria gasto muito mais tempo dando um trato no cabelo! Olhe s pra mim! Que desalinho! Estou horrvel! Talvez devesse 
trocar de roupa. Esse short  velho.
      - Cris, chamou a me pela porta fechada do banheiro. O Rick chegou.
      - J vou.
      Resolveu ir como estava e pegou um vidro de perfume do cesto, mas parou antes de dar uma borrifada. Era o Jungle Gardnia, o perfume que usava quando saa 
com o Ted, e ele dizia que lembrava o Hava. No, definitivamente, no usaria Jungle Gardnia perto do Rick. Procurando no fundo da sua ncessaire, encontrou uma 
amostra de perfume que tinha ganhado no shopping. Abriu e passou o perfume nos pulsos.
      Que cheiro forte! Que negcio  este? Definitivamente, no  minha fragrncia! Tentou limpar com um lencinho, mas desistiu. No quero deixar o Rick zangado 
por demorar muito. Tenho de ir assim mesmo. Meu cabelo est um desastre!
      Com o corao batucando e um sorriso largo no rosto, Cris apareceu na sala. Rick levantou-se do sof e lhe deu um daqueles sorrisos tipo "aposto que voc est 
contente por me ver".
      Seria um arzinho de decepo que ela notou no rosto dele? Seria por causa da roupa? Do cabelo? Ela se repreendeu por estar sendo to obsessiva, e perguntou:
      - Quer beber alguma coisa, Rick?
      - No. Na verdade, estava pensando em dar uma chegada com voc at o Seven-Eleven* para tomar um "refri" geladinho. J perguntei a sua me e ela deixou, desde 
que voc esteja em casa at a hora do jantar. Vamos? Perguntou, oferecendo-lhe o brao e conduzindo-a at o carro.
      _______________
      *Seven-Eleven: nome de uma rede de lanchonete. (N.da T.)
      
      Chegaram ao estacionamento do Seven-Eleven e Cris reconheceu sete rapazes que l estavam sentados no cap dos carros. Eram velhos amigos do Rick, e todos do 
time de futebol.
      Cris se sentia sem jeito e fora do seu ambiente enquanto se fazia as apresentaes. Os rapazes comearam a fazer piadinhas e falar sobre coisas das quais ela 
estava por fora. Cris era a nica garota ali. Depois de uns cinco minutos, Rick tirou do bolso umas notas de dlar e disse:
      - Quer comprar uma Coca-Cola pra mim? Grande.
      Que mais ela poderia fazer? Pegou o dinheiro e entrou na fila para comprar um copo de Coca-Cola gelada. Para si mesma, comprou uma Cherry Coke pequena. Por 
mais meia hora ficaram em p na frente dos carros. Cris disse, quando muito, umas sete palavras. Os amigos de Rick viam-na como uma admiradora dele, uma garota sem 
nome, sem identidade. No ano passado ela evitara aproximar-se desse grupo como quem corre da gripe; agora estava a, presa no meio deles.
      - Temos de ir, anunciou de repente, o Rick, jogando seu copo no lixo e acertando uma cesta perfeita. Dois pontos. Vejo vocs por a.
      - Tchau, disse Cris com meiguice, e seguiu o Rick at o carro. 
      - Como foi a semana, perguntou ela, ansiosa por atrair para si a ateno dele aps ter sido ignorada por tanto tempo. Como vo os estudos?
      - Bem.
      - Voc gosta das suas matrias e tudo o mais? Perguntou ainda, esperando uma resposta mais detalhada.
      Rick virou a esquina depressa, fazendo cantar os pneus.
      - Voc parece a minha me, Cris.
      - Desculpe. Estive pensando em voc a semana inteira e fiquei imaginando como estaria passando, s isso.
      - Tambm estive pensando em voc.  por isso que vim at aqui hoje. Senti sua falta.
      Virando outra esquina, Rick parou perto de um parque e desligou o motor.
      - Chegamos, disse. Agora vamos  opo nmero oito da minha lista de encontros. Dar uma balanada no parque.
      Deus a volta correndo, abriu a porta dela e conduziu-a at a rea de playground.
      - Rick! Que loucura! Disse Cris, notando cinco ou seis crianas gangorrando. No podemos tirar os balanos dessas crianas.
      - Ei, eu no pretendo tir-las da. Vamos esperar a nossa vez. Olhe. O gira-gira est livre. Vamos, eu lhe dou uma girada. 
      Aqueles sentimentos de empolgao e deslumbramento comeavam a voltar para Cris. Saltou no gira-gira, segurou firme e brincou:
      - No v muito depressa. Lembra que acabei de tomar um "refri".
      - No se preocupe. Eu vou bem devagarinho. Devagar como um caracol.
      Antes mesmo de terminar a ltima palavra, Rick agarrou a barra de metal e se lanou, fazendo um giro apertado na areia. 
      Cris riu ao vento e gritou:
      - Mais devagar!
      Trs crianas apareceram de repente:
      - Deixe a gente subir! Gritaram. Pare! Queremos andar de gira-gira.
      Rick parou. Cris aproveitou a oportunidade para  descer enquanto as crianas subiam. Ela deu uns passos para trs, tirando o cabelo do rosto, e admirou o jeito 
brincalho do Rick com as crianas, que davam gritos de prazer enquanto ele as girava sem parar.
       o meu namorado. Olhe s pra ele. Um cara legal, brincando assim com a crianada. Por que ser que me sinto maravilhosamente bem e muito mal perto dele, tudo 
num espao to curto de tempo? Ser que ele sabe o quanto controla os meus sentimentos?
      Cris notou que agora os balanos estavam vazios. Foi at o do meio e se posicionou, olhando para o Rick. Devagar, ps-se a balanar para frente e para trs, 
observando-o e ouvindo os sons de alegria produzidos por seu f-clube giratrio.
      Era uma tarde clara e ensolarada de setembro, ainda quente, mas com uma brisa agradvel vinda do oceano, a uns vinte e cinco quilmetros de onde estavam. O 
outono vinha, p ante p, de sapatilhas de bal, procurando no perturbar os ltimos dias de vero. At mesmo o ar, para Cris, tinha cheiro de outono.
      Rick deixou o gira-gira e o bando de meninos tontos, e foi at Cris. Com a mo no peito, disse:
      - Esse foi meu exerccio de hoje.
      - Voc ainda no acabou, disse Cris, em tom de brincadeira. Ainda tem de me empurrar no balano. Lembra? A opo nmero oito da sua lista?
      Rick foi por trs e segurou as duas correntes nos braos fortes.
      - L vai, baby. Foi voc quem pediu.
      Ele a puxou para trs como uma flecha humana, e soltou.
      - Upa! Gritou ela, segurando firme e sentindo-se levantando vo.
      Na volta do balano, Rick empurrou mais devagar. Apertou as mos contra as costas de Cris, e a garota estendeu as pernas para a frente, apontando para o cu 
azul. Sentia-se livre e um pouco tonta. Era assim que sempre imaginava que seria quando estivesse com um namorado. Desejou sentir-se sempre assim com o Rick. Estar 
feliz e divertir-se desse jeito era bem melhor do que a "fossa", o jeito deprimente como passara a semana inteira, quando no estava com ele.
      - Isso aqui  o mximo, Rick! Gritou por cima do ombro. Fazia sculos que eu no gangorrava.
      - Eu tambm, disse Rick, deixando seu lugar e sentando-se num balano vazio, ao lado de Cris. Vamos apostar uma corrida. 
      Os dois impulsionaram-se at o cu, cada vez mais alto, rindo e gritando como crianas. A corrente do balano de Cris comeou a prender, cada vez que ela subia. 
Foi mais devagar e disse.
      - Est bem, voc ganhou.
      - Como sempre, replicou Rick, indo mais devagar para alcanar o nvel dela de volta ao cho. Mudei para o apartamento do Douglas. L tem mais dois rapazes.
      - Verdade? E como esto se dando? Perguntou ela enquanto se desaceleravam e recobravam o flego.
      - Radical. Melhor que o dormitrio. Nenhum de ns sabe cozinhar, e temos muito poucos mveis. Fora isso, est timo. 
      Cris ainda no sabia o que pensar diante do fato de o Rick entrar to facilmente na vida do Douglas e de alguma forma substituir o Ted.
      - Voc ainda no me disse o que resolveu.
      - Sobre o qu?
      - Sobre o trabalho. J conseguiu mudar seu horrio?
      Cris engoliu em seco, desejando que ele aceitasse sua resposta.
      - Tenho de ficar s sextas-feiras pelo menos mais um ms. Tem outra garota que disse que me cobriria nos sbados sempre que eu quisesse, porque ela precisa 
do dinheiro. Mas no posso abrir mo de muitos sbados, porque seno iria ganhar muito pouco.
      Rick parou de balanar-se e ficou no lugar, chutando a areia.
      - Eu tinha planos para ns neste prximo final de semana. Acho que eu tenho mais interesse em sair com voc do que voc comigo.
      - Este sbado eu consigo folgar. Quais eram seus planos?
      O bico que ele fazia deixava-a mais irritada do que nervosa.
      - Deixa pra l.
      - Rick, estou me esforando ao mximo! Falou Cris, estourando. Me d uma chance! Eu consigo folgar no sbado, meu castigo acabou, e estou to ansiosa quanto 
voc para sairmos juntos. Ento vamos, vamos dar um jeito de resolver as coisas!
      - Est bem!  o seguinte: eu tinha pensado em empinar papagaios na praia, jantar no restaurante mexicano em Carlsbad e depois pegar um cinema. Acha que conseguimos 
fazer tudo isso, ou voc tem restries de tempo na sada com o namorado?
      - No, claro que no. Parece timo. Vou verificar l em casa e te informo tudo assim que souber. Est certo?
      - E posso comear a telefonar para voc?
      - Sim.
      Cris sentiu que tudo estava entrando nos eixos, e daria certo. J estava ansiosa para passar o sbado com o Rick.
      - Mais uma corrida, desafiou ele, dando a arrancada e impulsionando o seu balano para o alto.
      Cris seguiu-o, apontando o p para o cu e tentando balanar bem alto para acompanhar o namorado.
      












































      Onde Est a Jibia?
      9
      Depois que Rick a deixou em casa, Cris pegou o telefone, fez algumas ligaes e combinou com a colega tirar folga do trabalho no sbado. No jantar, apresentou 
cautelosamente o plano aos pais.
      - No gosto da idia de voc faltar ao trabalho, comentou o pai. Desta vez est bem, mas no deve faz-lo de novo, a no ser que esteja doente, ou que tenhamos 
alguma coisa planejada para a famlia.
      - Mas ento est bem se eu e o Rick passarmos este sbado juntos? Vamos  praia; jantamos em Carlsbad e depois ao cinema.
      Cris queria certificar-se de que no haveria nenhum "grilo" nos planos de fim de semana. Seus pais se entreolharam.
      - Desde que esteja em casa de volta at s dez, est bem. No abrimos mo do horrio de voltar para casa. Um minuto depois das dez, e voc volta ao castigo, 
disse o pai.
      No dia seguinte, Rick telefonou aps as aulas e quando ela falou com ele, parecia muito contente. Ela se sentia nas nuvens.
      - Tenho uma surpresa pra voc, disse ele.
      - Verdade? O que ?
      - Voc saber no sbado.
      - Posso tentar adivinhar?
      - Pode, mas no vai adiantar. Voc nunca vai adivinhar. Melhor  esperar a surpresa.
      Conversaram por muito tempo, e a deu a hora do jantar. Cris resmungou quando lembrou que era a sua vez de lavar a loua. Deixara de lado alguns deveres de 
escola do dia anterior porque passara a tarde com o Rick no parque e estava cansada demais para estudar  noite. Nesse dia, portanto, tinha muita leitura para fazer.
      Eram quase 10:30 quando ela sentiu que no conseguia manter mais os olhos abertos. Ainda faltavam quatro captulos para ler e duas pginas de Matemtica. Desistiu 
e foi dormir.
      Na manh seguinte estava se sentindo muito mal. O dia se arrastava lentamente. Na hora do almoo, Katie voltou a dar palpites:
      - Na minha opinio, voc pegou alguma coisa. Est com os olhos avermelhados.
      O relacionamento delas andava meio tenso nos ltimos dias e os comentrios de Katie sobre a aparncia de Cris no contriburam para melhor-lo. Cris aprendera 
a manter a conversa numa espcie de zona neutra, falando da escola e outras amenidades.
      -  de ler demais, disse. E nem deu pra terminar tudo ontem  noite. O que eles esto querendo com a gente dando tanto trabalho de casa este ano?!
      - Esto nos preparando para a faculdade, no sabe? Falou Katie, dando uma mordida no chocolate. E voc j escolheu a poesia para a aula de Literatura?
      - No. E voc?
      - Acho que sim. So todas meio difceis de ler em voz alta por causa da linguagem antiga. Quer dizer, se a gente tem de ficar em p na frente da classe e ler 
uma dessas obras-primas do Romantismo, pelo menos deviam nos dar algo escrito em linguagem atual.
      - So em linguagem vitoriana.  por isso que so da seo de poesia vitoriana, lembra?
      Cris estava sem apetite. Era um dos ltimos dias de vero, e sua vontade era esticar na sombra e dormir.
      - Bem, ento depois que voc escolher a sua, me diga se  fcil.
      Cris passou na biblioteca a caminho de casa e pegou um livro com algumas das poesias sugeridas para a aula. Em seguida, foi direto para casa e tirou uma soneca. 
Sua me acordou-a na hora do jantar. Cris pouco comeu.
      - Voc est se sentindo bem, Cris? Ser que no est ficando doente? Perguntou a me, colocando sua mo fria na testa da filha.
      A mo na testa lembrou-lhe alguma coisa. O que ser? Ted. A bno que ele lhe dera naquela madrugada na praia. A pequena lembrana foi como uma chave que 
destrancou um ba de pensamentos e sentimentos. Cris lutou para manter-se calma interiormente.
      - Estou bem, disse para sua me. S cansada de tanto dever. Tenho mais ainda pra fazer hoje.
      - Eu ajudo a lavar a loua, ofereceu-se a me.
      Terminaram a cozinha s 7:15, mas no momento que Cris ia mergulhar no estudo, o Rick telefonou. Ela se enroscou com o telefone no final do corredor e deixou 
a voz suave do rapaz apagar os pensamentos anteriores sobre o Ted.
      - Sinto sua falta. Estou contando os dias at sexta. Voc no se importa se eu passar algumas horas numa certa loja de animais, se importa?
      - Desde que eu no entre em fria.
      Cris mal acreditava no nimo que ia-se apossando dela enquanto falava com o Rick.
      - Sabe do que sinto falta? Do cheiro do seu cabelo.
      - Meu cabelo? Que cheiro tem?
      - Sei l. Algo limpo e refrescante, como limo ou coisa parecida. E sinto falta da sua mo na minha, macia e pequena.
      Cris olhava as mos, enquanto Rick ia falando aquelas frases agradveis. Nunca tinha pensado nelas como pequenas. Notou que as unhas de trs dedos estavam 
quebradas. Pensou que precisava lembrar-se de fazer as unhas antes de sexta-feira. Rick notaria.
      Ele disse mais um bocado de coisas lindas de que gostava a respeito de Cris. Quando ela desligou, s nove, sentia-se uma princesa. Resolveu adiar o dever de 
casa e fazer as unhas.
      Na sexta de manh, a professora de Literatura chamou-a:
      - Cristina Miller. Qual a poesia que voc selecionou para ler em aula na semana que vem?
      Cria agarrou o livro que tinha tirado da biblioteca. Correu os olhos pela lista de poesias vitorianas, e parou em uma no final da pgina porque fora escrita 
por uma mulher que tinha seu nome.
      - Vou ler "Duas Vezes", de Christina Rossetti, respondeu.
      Esperava que fosse uma poesia curta. Antes de ter oportunidade de abrir o livro para procurar, o sino tocou.
      - Voc no me disse que tinha selecionado uma poesia, comentou Katie, andando com Cris enquanto saam pelo corredor barulhento.
      - At um minuto atrs eu no tinha nenhuma. Acabei de escolher, confessou. E voc, onde encontrou a sua?
      - Peguei uma da apostila. A mais curta. Quer ouvir as primeiras linhas? Est aqui. Me diga se esta poesia no lembra alguma coisa.
      "Colhi as flores rseas da minha macieira
      e usei-as nos cabelos a noite inteira;
      ento, no tempo certo, fui procurar
      e nenhuma ma mais pude encontrar."
      
      Katie olhou para Cris, procurando sua reao. Cris encolheu os ombros.
      - E ento? No faz pensar em alguma coisa?
      - No. No que eu deveria pensar com essa poesia?
      - Nada, nada, disse Katie, colocando a apostila de volta na pasta. S que pensei em certas pessoas que andam danando com flores no cabelo, sem perceber que 
mais tarde no vo ter mas para colher.
      - O que est tentando me dizer? Indagou Cris, comeando a sentir-se zangada de novo.  sobre o Rick, no ? Voc est morrendo de vontade de me dar uns conselhos 
j faz algumas semanas. Que tal agora? O que  que voc tem contra ele?
      O rosto de Katie ficou vermelho.
      - Quer saber o que acho? Muito bem, vou lhe dizer! Voc est errando redondamente em namor-lo. O Rick no  boa coisa. Ela vai lhe causar muito sofrimento. 
Por que voc no pode simplesmente sair uma vez com ele e ficar s nisso? Por que teve de terminar com o Ted e se amarrar ao Rick?
      - Katie, no  assim. J lhe expliquei. No era minha inteno que as coisas fossem assim, mas aconteceu!
      - . Se voc quer as flores ento use-as. Mas no espere que eu fique com pena de voc quando elas morrerem e voc descobrir que no h mais as mas!
      E agitando o cabelo ruivo, Katie se encaminhou para a sua sala.
      O que ser tudo isso? Qual o problema dela?
      Duas aulas mais tarde, Katie estava esperando a Cris perto do seu armrio.
      - Desculpe. Voc ainda est zangada comigo?
      Cris pensou em pis-la um pouco, mas lembrou que ela era sua melhor amiga. Seria horrvel brigar com ela.
      - S no entendo o que voc tem contra o Rick, disse Cris, remexendo na combinao do cadeado de seu armrio. Voc no est dando nenhuma chance pra ele, e 
acho que nem pra mim.
      - Eu sei. Voc tem razo.
      - Voc no conhece o Rick como eu. Comigo, ele  um cavalheiro perfeito. J estou numa situao difcil porque meus pais me deram aquele castigo, e tentando 
me ajustar em um novo emprego. S faltava agora a minha melhor amiga ralhar comigo.
      - Voc est certa, Cris. Eu j lhe disse que dou todo apoio.  s que agora voc est trabalhando fora e namorando, e no tem muito tempo de sobra pra mim.
      - Ento vamos combinar alguma coisa. No quero deixar voc de lado.
      - Eu sei. Tem muita coisa acontecendo com voc. Entendo isso. Temos de dar um jeito de achar um tempo para fazer aquela tradicional festa da camisola.
-  isso a! concordou Cris, sentindo que as coisas melhoraram entre elas. Quem sabe no prximo final de semana...
- Est certo. No prximo final de semana.
      Ao dirigir-se para o trabalho depois das aulas, Cris pensou:
      Minha vida est ficando complexa demais. De repente no tenho mais tempo de fazer as coisas que costumava fazer.
      Entrou num posto de gasolina para abastecer. Gastaria quase a metade do seu primeiro cheque de pagamento no tanque do carro que ela compartilhava com a me.
      , suspirou com o cheiro enjoativo do combustvel e encher-lhe as narinas. A vida  mesmo complicada.
      Chegou ao trabalho com cinco minutos de atraso.
      - Tive de parar no posto, explicou ao Jon. J notou como a gasolina est cara?
      - Na verdade, o preo da gasolina abaixou um pouco, replicou ele. A propsito, seu namorado passou por aqui.
      Cris parou e olhou para Jon.
      - Meu namorado?
      Como ele sabe sobre o Rick? Ele s esteve aqui uma vez. O que ser que o Rick fez? Ser que entrou e avisou ao Jon: "Fique longe dela, Tarzan. Ela  minha"?
      - , seu namorado, repetiu ele comum sorriso diferente, parecendo divertir-se por mexer com ela.
      - Ele disse alguma coisa?
      - No, mas vai voltar. Foi  joalheria.
      Cris ficou surpresa com a perceptividade do Jon.
      - Voc no perde nada, hein? Disse, sentindo-se  vontade para brincar um pouco com ele tambm.
      - No. Nada. Quer que eu lhe diga como  sua melhor amiga? Sabe, a ruivinha com o poodle de nome Poopsie?
      Agora a Cris estava envergonhada. Como  que o Jon notava todas essas coisas?
      - E eu percebi que fora criada numa fazenda no momento em que vi seu pai.
      - No acredito! Voc tem percia de radar ou algo parecido? Perguntou Cis, pensando em quantas outras coisas ela fizera na loja achando que ele no percebia.
      - Deps de trabalhar aqui algum tempo, a gente comea a conhecer os diversos tipos de pessoas. A propsito, vou ter de sair mais cedo hoje, e a Beverly vai 
ficar encarregada de fechar a loja. Sei que voc no trabalha amanh, mas gostaria que ficasse um pouquinho depois das nove hoje no caso da Beverly precisar de ajuda 
para fechar.
      - Est certo. Tudo bem.
      - timo. A vem ele; seu namorado. Fique aqui na caixa para mim. No me importo que voc converse com ele, desde que no perca de vista nenhum fregus. E no 
comecem nenhuma briga. Tende a dar azar, atrai maus negcios, concluiu ele.
      Jon afastou-se at o fundo da loja, sorrindo consigo mesmo.
      - Ol! disse Rick.
      Olhou em volta, para ver se no havia ningum por perto, e deu  Cris um rpido beijo.
      - Ol! Respondeu ela, um pouco assustada com o cumprimento dele.
      - Tenho uma surpresa pra voc, disse. Mas s vou lhe dar amanh. Agenta esperar at l?
      - Se preciso, Jon percebeu que voc  meu namorado, disse ela. Ele no se importa de voc vir aqui, desde que no me afaste dos fregueses.
      - Ah! E voc lhe contou como eu sou um vendedor maravilhoso?
      Cris sorriu  lembrana da noite em que ele vendera a tartaruga e o coelho.
      - No, mas certamente vou mencion-lo quando chegar a hora. Que tal descobrir alguma pobre alma inocente e lhe vender uma das aves tropicais hoje? Elas so 
carssimas. Ou melhor ainda, que tal arranjar um novo lar para a jibia? Jon lhe ficaria grato pelo resto da vida!
      - Jibia?
      - Aquela cobra que est l nos fundos.  um bicho imenso, feio e abandonado.
      - J vi que voc  um dos maiores fs dela, brincou. Mas no vou poder vender a jibia para voc hoje, querida, continuou ele em tom de mistrio. Vou sair 
com uns colegas para comer uma pizza e depois vamos ao jogo. S dei uma parada aqui para lhe dizer a hora que vou busc-la amanh.
      O corao de Cris foi l no fundo. Primeiro, abrira mo do tempo que passaria com a Katie, porque ia sair com o Rick, e agora ele ia ao jogo de futebol enquanto 
ela trabalhava.
      Rick certamente percebeu a decepo estampada nos olhos de Cris, porque disse:
      - Ei, vamos l! Amanh vamos passar o dia inteiro juntos, lembra? Eu busco voc s onze - esteja pronta e traga um casaco.
      - Est bem, disse ela, tentando mostrar-se mais animada. Mas vou ficar pensando em voc a noite toda.
      - Voc nem vai sentir minha falta, brincou Rick. Claro que no, pois tem o Tarzan e uma jibia por companhia.
      Novamente olhou em volta, para verificar se no havia gente observando, e ento deu-lhe um beijo rpido antes de sair correndo porta a fora.
      Felizmente, foi uma noite animada e Cris no teve tempo de sentir pena de si mesma.
      Jon saiu s oito, e Cris teve movimento na caixa registradora at as nove. Mas no fez nenhuma grande venda. A maioria foi de artigos pequenos, como rao 
para peixe e ossos para cachorros. Ela no entendia por que alguns dias eram to vagarosos e depois, como desta feita, a loja ficava abarrotada de gente.
      s nove, Beverly puxou a pesada porta de ferro que os separava do resto do shopping at a metade. Falou para os trs meninos que estavam no fundo da loja:
      - Estamos fechando.
      Os garotos saram correndo, rindo e dando tapinhas uns nos outros.
      - Cambada de pivetes! Murmurou Beverly, descendo o resto da porta. Eles no tm casa? Onde esto os pais deles?
      - Quer que eu faa mais alguma coisa? Perguntou Cris. J somei o caixa e juntei todos os cheques.
      - Eu fao o resto ento. Obrigada.
      Cris pegou a bolsa e despediu-se.
      - Antes de sair, falou Beverly, pode verificar as gaiolas? V se todos os bichinhos esto prontos pra dormir.
      - Claro, replicou Cris.
      Verificou as aves, os coelhos, gatinhos e cachorrinhos. Tudo estava OK. Fez uma rpida vistoria dos peixes, lagartos e tartarugas, e j ia dizer  colega que 
tudo estava certo, quando percebeu uma coisa que a fez deter-se, assustada. A gaiola da jibia estava aberta e vazia.
      - Be-ver-ly! gritou Cris, examinando rapidamente o cho. Venha aqui depressa! Em seguida, correu para a sala dos fundos e subiu numa cadeira, onde Beverly 
a encontrou.
      -  a jibia. No est na gaiola.
      - Ah no! Agora sei por que aquela molecada estava agindo como se tudo fosse uma grande piada! Temos de ach-la antes que ela saia da loja e v dar um passeio 
pelo shopping!
      Cris agarrou uma vassoura e desceu da cadeira cautelosamente.
      - V voc primeiro, disse.
      Beverly ficou bem ao lado dela e as duas foram passando devagar pelos corredores.
      - Vem c, bicho! Murmurou Beverly.
      Cris no sabia se a Beverly falava assim de nervosa ou por brincadeira.
      - Para onde ela iria?
      - Qualquer lugar.  melhor a gente engatinhar e procurar. Cobra gosta de cantos escuros e apertados.
      - Eu  que no fico no cho! Veja l se vou deixar minha cara na frente da boca desse monstro!
      Naquele instante, a jibia saiu de trs dos sacos de rao para cachorro e foi deslizando numa velocidade surpreendente para baixo do balco da caixa registradora.
      - Pega ela! Gritou Cris, erguendo a vassoura acima da cabea.
      - No bata nela, falou Beverly. Vou tentar peg-la no canto.
      Corajosamente, pegou um cesto de lixo, derramou o contedo e se aproximou do balco.
      - Vem c, bichinha! Vem pra c, menina!
      Ouviram um farfalhar como se algum tentando abrir um saco de batatas fritas e amassando o contedo na tentativa.
      - Vem c, vem! Sabemos que voc est a, disse Beverly, deixando transparecer claramente seu nervosismo.
      Com cuidado, Cris se afastou um pouco para o caso de o bicho resolver vir em sua direo. Correu para cima de um monte de sacos de rao, usando a vassoura 
como apoio.
      Houve um silncio. O nico som que se ouvia era o gorgolejar dos aqurios.
      - Onde  que ela foi parar?
      - No est deste lado. D pra ver alguma coisa a?
      Esticando o pescoo, apoiada  vassoura, Cris virou-se para a frente, a fim de verificar o piso perto do balco. Forou demais os sacos de rao, que comearam 
a escorregar. Cris tentou parar a derrapada, mas de repente a vassoura cedeu com o peso. Ela foi para o cho, braos e pernas esticados, com pedaos de rao saindo 
do saco rasgado e escorregando por suas costas.
      - Voc machucou? Indagou Beverly, correndo para junto de Cris e pegando-a pelo brao.
      Cris gemeu e abriu os olhos. De repente ficou paralisada.
      A meio metro de distncia, estava o animal, paralisado como ela.
      Beverly no via. Continuava procurando ver se Cris precisava de algum socorro.
      - Quebrou alguma coisa? Machucou? Consegue mexer?
      Antes que Cris pudesse respirar ou mesmo piscar, a jibia virou-se e fugiu pela porta da frente, alcanando a rea central do shopping. Beverly percebeu a 
fuga.
      - Ah no! Temos de peg-la.
      Cris percebeu que ficara paralisada de medo, e no por vrtebras quebradas. Ento aprumou-se, ficou de p e seguiu Beverly pelo shopping.
      - Pra que lado que ela foi?
      - Pra c. Est indo para aquele viveiro de plantas, disse Beverly, correndo atrs do bicho.
      Quando elas viraram a esquina, um segurana gritou:
      - Alto a! Estava de ps firmes, mo no revlver.
      - Est tudo bem! Gritou Beverly. Ns trabalhamos aqui. Na loja de animais. Um dos nossos animais escapou, s isso!
      O guarda aproximou-se do viveiro e delas, e perguntou:
      - Qual deles, um daqueles coelhinhos esperto?
      - No exatamente, disse Beverly, olhando para Cris e de volta para o guarda. Foi a cobra.
      - Cobra?
      - ; nossa jibia de cinco metros, replicou Beverly e mexeu cautelosamente nas folhagens.
      - Uma jibia? Vocs soltaram uma jibia? Vou pedir reforos.
      O guarda tirou o walkie-talkie e comeou a dar ordens, inclusive para Beverly e Cris.
      - Vocs duas se afastem. O controle de animal j vem vindo.
      - No deixe que eles a machuquem. O Jon tem essa jibia h muito tempo e ns estaramos numa enrascada feia se alguma coisa lhe acontecesse, disse Beverly.
      Diversos outros empregados que fechavam suas lojas notaram o movimento e saram para ver o que estava acontecendo. A equipe de controle animal chegou, e depois 
o corpo de bombeiros com uma unidade de apoio paramdico e uma dzia de espectadores curiosos.
      Depois de tudo isso, a captura da jibia ocorreu sem maiores problemas. Um senhor idoso, vestindo uma roupa de proteo contra mordidas, entrou no viveiro, 
achou a cobra e pegou-a com uma vara comprida que tinha uma laada na ponta. Remexendo-se em protesto, a fujona foi levada de volta para sua gaiola acompanhada por 
um sqito de curiosos. Beverly foi ao escritrio da administrao para preencher a ocorrncia, com a segurana do shopping. Cris voltou  loja, cercada de curiosos.
      - Cuidado, avisou ela, notando comida de cachorro esparramada pelo cho.
      A jibia foi reconduzida  sua gaiola, que foi trancada. Para maior garantia, Cris colocou um saco de pedras de aqurio. Pegou a vassoura e se ps logo a trabalhar, 
varrendo a rao e tentando salvar o quanto podia num balde. Pouco depois, Beverly voltou e as duas jovens caram na gargalhada, afastando de vez o que lhes restava 
ainda de tenso nervosa.
      - Ser que devemos falar com o Jon, ou deixamos que ele descubra por que a jibia, de repente, est com tanto apetite?
      Cris olhou o relgio.
      - Ah no! Passou das dez! Tenho de ligar pra casa.
      Certamente os pais entenderiam por que ela ainda no tinha chegado a casa. Ser que a colocariam de novo de castigo?
      - Al, pai?
      - Onde voc est, Cris?
      - Ainda estou no trabalho.  que a jibia foi para o shopping...
      - O qu? A jibia? Pensei que voc estivesse com o Rick!
      Cris engoliu a risada e disse:
      - Pai, explico tudo quando chegar. Estou saindo agorinha mesmo.
      Desligou e, entre risadas, disse a Beverly:
      - Meu pai j achou que eu estava com o meu namorado!
      Beverly sorriu e replicou:
      - Vai ver que ele est dizendo que acha seu namorado parecido com uma cobra.
      
      
      
      
      
      
      
      Papagaios Danando ao Vento
      10
      Seus pais no s compreenderam por que ela chegou to tarde, como tambm se empolgaram com a aventura. A me encheu taas de sorvete e os trs sentaram-se 
 mesa da cozinha, enquanto Cris ia contando com  detalhes a histria da grande fuga da serpente.
      No momento em que ela cara, no percebeu que tinha machucado o cotovelo, mas sua me notou que havia uma mancha arroxeada no brao direito. O joelho de Cris 
tambm latejava.
      - Pena que voc no vai trabalhar amanh. Seu chefe ia ficar com d de voc , se visse os ferimentos.
      - Por que no vai trabalhar amanh? perguntou o pai.
      - Vou empinar papagaios na praia com o Rock amanh, lembra? Voc disse que podia.
      - Est certo, respondeu o pai. Eu havia me esquecido. Empinar papagaios, hein? Onde esse cara arruma tanta idia criativa?
      Cris falou da lista que o Rick fizera, acrescentando que fazia mais de um ano que ele queria namor-la. Foi bom contar para seus pais a respeito desse aspecto 
do Rick. Eles s passariam a respeit-lo mais, se vissem nele persistncia.
      - Esse  o mesmo cara que telefonou para c no seu aniversrio, quando voc estava no Hava, e me pediu o nmero de l? perguntou o pai.
      - Exatamente. Era o Rick.
      - De onde ele estava telefonando? Parecia que estava dentro de um longo tnel.
      - Da Itlia.
      - Quer dizer que ele telefonou l da Itlia para voc em Maui? indagou o pai, erguendo as sobrancelhas espessas. Talvez tenhamos subestimado esse rapaz.
      Na manh seguinte o Rick telefonou s 11:10 para dizer  Cris que estava atrasado. Ela estava pronta desde as 10:30 e no se sentia a vontade de esperar muito 
mais.
      - A que horas voc acha que chega?
      - Logo que puder. Chegaram umas pessoas aqui. Ainda no posso sair, mas vou logo que puder.
      O "logo" do Rick acabou sendo depois das treze horas. Cris arrumou seu quarto enquanto esperava, o estmago roncando de nervoso o tempo todo. Quando ouviu 
a campainha, ficou com vontade de correr  porta e ralhar com o Rick pelo atraso.
      Sua me foi abri-la para ele, e quando Cris chegou  sala, engoliu a raiva e sorriu como se nada tivesse acontecido.
      - O tempo mudou hoje, disse a me. Ser que d para ir  praia? Parece que vai chover.
      -  o melhor tempo para empinar papagaios, respondeu o Rick com ar tranquilo e confiante. Estou com um casaco no carro. Cris, voc trouxe um casaco?
      - No. Vou buscar.
      Como ele pode ficar assim to calmo depois de me ter feito esperar horas?  melhor me acalmar, seno vou estragar o passeio. Ele est aqui agora, e  s isso 
que interessa.
      Voltou com um casaco e um sorriso, resolvida a no permitir que nada estragasse as horas que iriam passar juntos. Seu pai agora estava conversando com a me 
e o Rick. Parecia ir tomando mais gosto por ele.
      - Vocs no querem comer alguma coisa?
      - Vamos almoar sanduche; depois, conforme prometi, levo a Cris para jantar no Felicidades. L tem a melhor comida mexicana de Carlsbad. A senhora j esteve 
l?
      - No, respondeu Margaret. Precisamos ir algum dia.
      Cris tinha de admitir que se sentia orgulhosa de v-lo educado daquele jeito com seus pais, apesar de eles terem sido to severos acerca do namoro. Na sua 
opinio, seus pais havia sido grosseiros com o Rick.
      - Tenham um timo passeio, disse a me. E ns a veremos quando chegar.
      - s dez, acrescentou Rick.
      - Ou at mesmo antes das dez, corrigiu o pai, sorrindo.
      Isso fez com que Cris lembrasse uma coisa que seu pai lhe dissera na noite anterior, aps o sorvete. Ele dissera que, se ser jovem s vezes era difcil para 
ela, e se ela achava os pais severos demais, devia lembrar-se de que eles, at ento, nunca tinham tido uma filha adolescente habilitada a dirigir e namorar. Explicou 
que algumas coisas eram mais difceis para ele do que para ela mesma. Ele tambm no tinha experincia nessa rea, e portanto nem sabia como agir.
      Quando Rick e Cris se aproximavam do carro, David, o irmo da Cris, pedalou sua bicicleta at o lado do veculo. Antes que o Rick desse partida no motor, David 
j perguntava:
      - Onde  que voc vai? Posso ir junto?
      Cris estava acostumada a levar o David com ela, sempre que saa com o Ted, j que, por motivo de idade, no tinha permisso para sair sozinha com rapazes. 
A companhia do irmo suavizava as coisas. Mas agora tudo era diferente. Ela estava namorando e ia sair com o namorado. Estava a pique de dizer: "Sinto muito, maninho, 
mas dessa vez no d", quando o Rick, respondendo por ela, gritou:
      - V se te manca, pivete! Em seguida, ligou o motor e arrancou com o carro, descendo a rua.
      Cris teve vontade de dizer ao Rick que no tratasse seu irmo desse jeito. Alm disso, tinha vontade de reclamar dele por ter chegado to atrasado. Mas desistiu, 
pois no queria estragar o passeio com discusses.
      Rick tomou a iniciativa da conversa.
      - Era prefervel eu ter ficado com voc na loja ontem  noite em vez de ir ao jogo. O Colgio Vista ganhou do nosso de novo..
      - Vocs saram depois do jogo?
      - Sim; fomos ao lugar de sempre, a turma de sempre. E nada mudou do ano passado pra c. Ah! e a Rene ficou dando em cima de mim at eu dizer pra ela que estava 
namorando com voc. Ela, provavelmente, vai procur-la  na segunda-feira, comentou e em seguida acrescentou baixinho: Mas at l voc ter uma prova.
      Cris tivera grandes conflitos com Rene na primeira primavera anterior, quando fizeram testes para lder de torcida. Mas este ano as duas ainda no se tinham 
cruzado. Ouvir da prpria boca do Rick que ele a chamara de "minha namorada" na frente de Rene dava a Cris uma indisfarvel satisfao.
      - Gosta de sanduche de peru? perguntou Rick ao estacionar na frente da lanchonete, abrindo a porta de Cris.
      - Gosto de voc, no gosto? brincou ela, pegando a mo dele e descendo do carro.
      - Engraadinha! Muito engraado, disse Rick, apertando-lhe a mo e puxou-a. Passou o brao dela pela cintura dele. Em seguida, abraou-a.
      - Ento, voc se acha engraada? indagou ele, e se ps a fazer-lhe ccegas.
      As risadas fizeram com que se sentisse contente por estar com o Rick. Passariam o resto do dia juntos, e ela queria aproveitar cada minuto.
      Comeram os sanduches no carro, a caminho da praia. O cu foi ficando mais escuro. Na verdade, estava parecendo um pssimo dia para ir  praia.
      -  bonito aqui, disse Cris ao olhar a faixa de areia longa e estreita. Diferente da praia de Newport. Nunca estive aqui antes. 
      - Ser que o vento est bom pra soltar papagaio? perguntou Rick, atando a linha do seu.
      O ar parecia pesado. O sol abria um rasgo por entre as nuvens grossas e tocava o oceano como se fosse uma lana iridescente.
      Rick entregou um papagaio a Cris.
      - Me acompanhe! Vamos ter de correr para faz-los subir.
      Ele segurou o papagaio acima da cabea e disparou a correr pela praia. Na segunda tentativa, o papagaio estava no ar.
      Cris seguiu o Rick, e, depois de seis tentativas, conseguiu empinar o seu. Ela foi dando a linha at o papagaio ficar bem alto, parecendo um pequeno tringulo 
contra um fundo de flocos de algodo acinzentados.
      - Isso a somos ns, disse o Rick, olhando para cima. Dois papagaios doidos, danando ao vento.
      Ficaram bastante tempo ali, lado a lado, puxando as linhas e vendo os papagaios se contorcerem ao vento. Algumas vezes as linhas quase se enroscavam, com os 
papagaios se aproximando demais um do outro e depois se afastando.
      - Acho que nunca empinei papagaio antes, disse Cris, tentando ligar o presente a alguma lembrana passada. Vai ver que soltei quando era muito pequena, e no 
me lembro. At que  bem divertido.
      - Ento, voc acha que a opo nmero quatro foi boa? perguntou Rick sorrindo, referindo-se  lista de encontros.
      - Muito boa. Apesar dos meus braos estarem ficando cansados.
      - Me d, falou Rick, pegando a linha de Cris. V se acha duas boas pedras e prenderemos os papagaios com elas.
      Cris tinha muitas pedras para escolher. Pegou as duas mais prximas e as depositou aos ps de Rick. Ele prendeu as linhas na areia sob o peso das pedras.
      - Isso deve segur-los. Quer dar um passeio? perguntou, oferecendo a mo a Cristina.
      Puseram-se a caminhar pela areia.
      Sentindo segurana com a mo na dele, Cris relaxou um pouco mais e passou a contar sobre a aventura da jibia na noite anterior.
      - Puxa, que pena que perdi a emoo toda! Eu devia ter ficado por l.
      - Tambm acho.
      -  difcil ver voc s uma vez por semana, disse ele apertando a mo dela. Queria que estivssemos juntos mais vezes. Voc no faz idia de como gosto de 
sua companhia, Cris. H tanto tempo espero por momentos como este.
      Rick parou de andar e fitou-a com expresso carinhosa nos olhos castanhos.
      - s vezes no acredito que voc, finalmente,  minha.
      Envolveu-a nos braos e a beijou
      Ia beij-la de novo, mas Cris se afastou um pouco para recobrar o flego. Como sempre, o Rick era rpido demais para ela, e vinha com muita fora.
      - No! Olhe l! Falou ela apontando por cima dos ombros dele. Nossos papagaios esto caindo na gua.
      O vento havia mudado de direo, e os dois papagaios iam perdendo altura rapidamente. Davam vos rasantes, adoidados e se aproximando cada vez mais das ondas.
      - Est tudo bem! Disse Rick, puxando-a para mais junto de si.
      - Vamos! Temos de salv-los!
      Ela se afastou dele e comeou a correr pela praia, com o Rick ao seu lado.
      Ele est zangado. Sei disso. Ele se zangou porque me afastei. Eu ainda no estou acostumada com o jeito dele de forar as coisas. Ser que ele realmente gosta 
de mim, ou ser que a Katie e os outros tm razo? Ele vai querer me usar at ficar entediado, e depois me jogar fora?
      Chegaram juntos ao lugar onde os papagaios estavam fixos na areia, mas j era tarde demais. As linhas se haviam embaraado e os dois j no tinham mais o favor 
da brisa. Caram na beira do mar, onde as ondas espumantes correram para lamber as suas feridas de papel.
      Cris olhou para aquele pedao de papel e as varetas, pensando se daria para consertar. No parecia muito plausvel. O desastre estava feito.
      - Bem, disse o Rick levianamente,  assim que acabam os papagaios doidos danando ao vento.
      Em seguida, pegou-os e os amassou.
      Uma lgrima inesperada escorreu pelo rosto de Cris que olhava o Rick jogar os frgeis papagaios na lata de lixo.

      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Tostada Surpresa
      11
      Depois de juntar os pertences e caminhar de volta pelo morro cheio de pedras, Cris gostou se sentir o calor do carro de Rick. Ele quase no conversou enquanto 
dirigia pela costa at Carlsbad. Ela queria que ele lhe segurasse a mo e colocasse uma msica suave, mas o rapaz parecia compenetrado e com o pensamento longe dela.
      A umidade da neblina do mar fez o cabelo escuro do Rick ficar mais espesso e ondulado, dando-lhe um ar mais agreste, como o de um montanhista. Cris gostava 
do cabelo dele assim. No sabia se devia dizer alguma coisa ou no.
      - Precisamos conversar antes do jantar, disse Rick. Quero que voc me diga tudo o que est sentindo. Tem muita coisa inexplicada entre ns, e quero deixar 
tudo claro, est bem?
      Cris fez que sim, quando ele a olhou. Estacionaram numa rea pavimentada sobre um penhasco com vista para o mar.  Rick desligou o motor do Mustang e subiu 
o vidro do seu lado pela metade para poder recostar-se na porta e olhar de frente para Cris.
      Pela expresso dele, ela no saberia se ele estava zangado ou apenas falando mais srio.
      - Nos conhecemos h cerca de um ano, recomeou ele. Desde que a conheci, compreendi que voc no era como a maioria das garotas. No sei como aconteceu, mas 
voc ficou na minha mente e eu pensava em voc o tempo todo. Algum me disse que voc tinha namorado, mas arrisquei e a convidei para a festa de retorno dos ex-alunos, 
lembra?
      Cris deu um sorriso:
      - . E fiquei muito envergonhada de ter de dizer que meus pais no me permitiriam sair com um rapaz enquanto no completasse dezesseis anos. E ainda faltavam 
nove meses!
      - E voc se lembra do que foi que eu disse naquele dia? perguntou ele com voz terna e expresso carinhosa.
      Cris sentia o corao derreter-se ao olhar para ele e dizer:
      - Disse que para uma garota como eu, voc poderia esperar todo esse tempo.
      - Estava sendo sincero, Cris, replicou Rick, estendendo a mo e pagando a dela. Esperei muito tempo para namor-la. E agora, toda vez que tento abra-la ou 
beij-la, voc se afasta. Voc j percebeu que desde aquela noite que vocs empapelaram a minha casa e voc pulou dos arbustos - puxa! levei um susto! - voc est 
fugindo de mim? Por qu? Eu no vou machuc-la. Prometo. S quero ficar pertinho de voc.
      Parecia que o corao dele tambm tinha se derretido. Ela nunca imaginara que o Rick a queria tanto assim.
      - Preciso saber por que voc no me deixa abra-la e beij-la. Que  que h de mal num rapaz demonstrar a uma garota o quanto gosta dela?
      Como Cris poderia responder isso? Ele dava a impresso de que tudo era to natural e sem maldade! Como explicar que ela tambm queria estar mais prxima dele, 
mas que se sentia dominada quando ela a beijava? Como ele entenderia a promessa que ela fizera a Alissa de no passar de beijos leves?
      - Quero que se abra comigo, Cris. Me diga o que est pensando.
      Cris resolveu experimenta-lo com uma pergunta.
      - Pode parecer bobagem, Rick, mas qual  o seu padro? Sabe o que quero dizer? At onde voc iria com uma garota?
      Rick fitou-a surpreso.
      - O que voc quer dizer? Aonde quer chegar? Acha que estou me aproveitando de voc?
      - No, no mesmo, falou ela sentindo-se meio envergonhada por conversar sobre isso com ele.  que tenho um padro: nada de beijo profundo, nada de intimidades. 
E hoje na praia, o que eu comecei a sentir quando voc estava me beijando  que, bem, ia muito alm de beijos leves.
      Um sorriso cobriu o rosto do Rick.
      - Ento, eu a fiz ficar enjoada de novo?
      Cris se lembrou de que ela havia dito isso a respeito da noite em que estacionaram e observaram as luzes de Escondido. Parecia que o Rick ficava todo orgulhoso 
de exercer domnio sobre ela.
      - No, voc no me deixa enjoada. No sei explicar. Sabe, gosto muito de ficar de mos dadas com voc, e quando voc me abraa, sinto-me aquecida, protegida. 
Essas coisas do segurana. Mas acho que fico me afastando, porque no quero ir alm disso e me colocar numa situao da qual eu no consiga sair.
      Veio  mente a figura dos papagaios emaranhados, mas ela resolveu deixar apenas a declarao, sem dar um exemplo.
      - Est certo, disse Rick, ajeitando-se melhor no banco e agindo como se essa conversa de corao para corao tivesse terminado. Ento  isso que faremos. 
Vamos dar as mos, abraos e beijos leves.
      Pelo jeito como ele falou parecia que estava debochando dela. Ligou o carro, e acrescentou com um sorriso:
      - Pelo menos por enquanto.
      Cris no sabia se sua sinceridade tinha lhe dado uma vitria ou apenas adiado a derrota. Pelo menos ela se sentia melhor, mais  vontade com o rick, agora 
que ele sabia quais eram seus limites e o que ela pensava sobre essas questes.
      O restaurante mexicano estava comeando a receber para o jantar. A recepcionista levou-os a uma mesa com poltronas de madeira de encosto alto, estofadas com 
tecido de brocado antigo e luxuoso.
      Um homem, vestindo camisa branca bordada e uma faixa de seda alaranjada na cintura, e cala preta, trouxe-lhe uma cesta de tortillas e encheu os copos de gua.
      - Buenas noches, disse-lhes.
      - , muitos nachos pra voc tambm, disse o Rick, que olhou o cardpio. Voc tem de comer a tostada?
      - Ah, eu tenho? E quem disse que tenho de comer a tostada? perguntou Cris com voz leve e travessa.
      - Eu, retrucou ele, com voz igualmente  travessa. Confie em mim. Voc vai gostar. Aproximou-se da beirada do banco e completou: Volto j. Se o garom vier, 
pea um ch gelado e um prato nmero quatro.
      Rick desapareceu. O garom, chegou e Cris, obedientemente, pediu o que ele mandara. Hesitou por um instante, depois cedeu  orientao do Rick e pediu para 
si mesma um ch gelado com tostada.
      Esse cara tem poder de mandar em mim ou no?
      Rick voltou todo sorridente.
      - Voc pediu a tostada, no foi?
      - Sim, vossa majestade.
      - O qu? Rick parecia assustado com a resposta dela. Voc me acha exigente demais ou o qu?
      - Ou o qu, replicou Cris, sorrindo.
      Ele deu de ombros e estendeu a mo e pegou a dela.
      - Deve ser a fora magntica que exero sobre voc.
      Tocou nos dedos dela e fez um barulho de sinal eltrico.
      - Bzzz, bzzz! Oh!no! exclamou. Estamos fazendo conexo magntica.
      Enroscando os dedos nos de Cris, continuou com a brincadeira:
      - Oh! No! No consigo me soltar!
      Torceu e mexeu com as mo unidas, como se uma corrente eltrica as tivesse juntado para sempre.
      - Par com isso! protestou Cris, sorrindo com a palhaada, mas por dentro sentindo-se esmagada por ter-lhe aberto o corao no carro explicando por que mantinha 
um p atrs nos carinhos, e v-lo agora a debochar dela.
      Ele relaxou o pulso e disse:
      - Sabe que voc  a garota com as mos mais macias que j conheci?
      Cris sabia que era um elogio, mas ficou com vontade de perguntar:
      "Ah, ? E quantas mos de garotas voc j conheceu?"
      Rick usou a mo livre para pegar uma tortilla e mergulhou na tigela de barro de salsa*, dizendo:
      ________________
      *Salsa: molho de tomate apimentado. (N.da T.)
      - E ento, o que voc quer fazer amanh? Tem alguma grande idia, ou devo continuar seguindo alista?
      - Quer ir almoar na minha casa depois da igreja? Perguntou Cris, pegando uma tortilla.
      - No vou  igreja. Ainda no lhe disse? Eu e meu irmo vamos jogar uma partida de raqueteball s dez. Posso chegar  sua casa por volta de 11:30.
      Fazia tanto tempo que Rick no ia  igreja, que ela nem conseguia se lembrar da ltima vez que o vira l - a por volta de junho, antes que ele partisse para 
a Europa. Cada semana era uma desculpa. Ela no queria parecer que estava ralhando com ele por ter-se afastado da igreja, ento no disse nada, mas tomou, mentalmente, 
a deliberao de for-lo a acompanh-la na semana seguinte.
      O garom se aproximou da mesa com um prato fumegante, que ele colocou na frente do Rick. Depois, com um sorriso cheio de dentes, disse a ela:
      - Y seorita, sua tostada.
      Colocou  frente dela um prato com alface picada, coberta com um "topo de neve" de creme de leite. Algo espesso e prateado volteava a alface logo abaixo do 
creme de leite, captando a luz e brilhando sobre ela.
      - O que  isso? perguntou, olhando primeiro para o garom, depois para o Rick.
      Os dois sorriram como meninos travessos com sapos nos bolsos.
      - Surpresa! disse Rick, retirando uma pulseira de prata do meio da alface. Deixe que eu coloque em voc.
      Limpou o creme com o guardanapo e colocou a pulseira no brao direito de Cris, apertando o fecho para garantir que estava seguro.
      O garom os deixou a ss, e Rick, ainda sorrindo, orgulhoso, perguntou:
      - Gostou?
      Cris olhou a pulseira grossa de prata agora no pulso em que durante vrios meses usara a do Ted. Esta era pesada. Segurou-a contra a luz e leu a inscrio 
com letras de caligrafia antiga. Dizia simplesmente: Rick.
      - Agora no h dvida de quem  seu namorado, disse com orgulho. Gostou, no gostou?
      - Estou surpresa,  s isso.  muito bonita. Obrigada.
      - Sei que vai gostar mais do que daquela outra. Acho que foi uma troca mais que justa, falou Rick, pegando o garfo e comeando a atacar seu enorme prato de 
comida.
      Esse comentrio doeu. Cris no apenas ficou zangada: ficou furiosa. Por que o Rick era to competitivo e ciumento que tinha de substituir a pulseira do Ted 
por uma maior e melhor, com seu prprio nome em letras grandes?
      Ela remexeu sua montanha de tostada no prato, ma comeu pouco. Rick quase no falou a partir da, mas devorou o jantar, usando os chips de tortilla para pegar 
o feijo e o arroz.
      Finalmente, ela chegou  concluso de substituir a pulseira era uma coisa tpica de rapaz. Aparentemente, fazia o Rick sentir-se mais macho, como quem marcou 
seu territrio, e, como ele disse, todo mundo saberia que agora ele era o namorado dela. Alm do mais, ter o rtulo de namorado do Rick no era to ruim assim.
      Saram do restaurante de mos dadas, a pulseira pesando entre a mo dele e a dela. Levou dez minutos apenas para chegar ao centro de cinema, onde Rick a levou 
at o guich. Sem perguntar sua opinio, comprou dois ingressos para um filme que comearia dentro de cinco minutos.
      - Bem na hora, hein? Disse Rick ao sair da fila e se encaminhar at a entrada para entregar os ingressos.
      Cris ficou para trs, lendo o cartaz da bilheteria.
      - Vamos! Chamou Rick.
      Ela se apressou pra alcan-lo, mas no momento em que ele ia entregar os ingressos, ela puxou seu brao e o levou para o lado.
      - Rick, disse ela baixinho. O filme  s para maiores de dezoito.
      - E da? Eu tenho dezoito anos.
      - Eu no.
      - Voc est comigo. No tem importncia. Ningum vai pedir sua identidade. Vamos logo, seno perdemos o comeo.
      - Rick, insistiu ela, deixando transparecer sua irritao. No posso assistir a esse filme. Tenho um compromisso com os meus pais de no assistir filmes imprprios 
para menores.
      - Pra mim, chega! disse Rick erguendo as mos para o ar sob a vista de vrias pessoas.
      Virou-se e foi andando com raiva para o estacionamento. Humilhada, Cris o seguiu at o carro, sentindo-se como um cachorrinho com o rabo entre as pernas. Quando 
chegaram ao carro, onde no havia gente para ouvi-los, Rick comeou a gritar.
      - Por que voc no me falou dessa sua leizinha antes de chegar aqui? Por que esperou at estarmos  porta e me fazer sentir um lixo na frente daquelas pessoas? 
Voc est to cheia de regulamentos, Cris! Isso me deixa louco! No pode namorar antes de dezesseis anos. Depois tem horrios absurdos e fica de castigo por uma 
coisa de nada. Fao um esforo tremendo para conseguir que voc encontre tempo para sair e quando sai, tem todos esses regulamentos como se eu fosse um monstro que 
tivesse que manter na gaiola! E agora, voc no pode assistir a um filme porque ofende os seus padres de perfeio!
      Rick deu um chute num pneu e fitou Cris com olhar feroz.
      - Voc est agindo como um beb, continuou.  s isso que est fazendo. Eu a conheo, Cris. Faz mais de um ano que a observo e sei que voc no  covarde, 
mas agora voc se acovardou, disse e cruzou os braos no peito.  melhor voc resolver se quer crescer e ter um relacionamento de namoro de verdade, seno...
      Cris no conseguia mais conter suas emoes.
      - Seno o qu? Voc me descarta e acha outra garota que faz tudo que voc quer?  isso que voc ia me dizer? Pode dizer! Diga!
      Rick se afastou, fungando.
      - No  isso que quero, e voc sabe. Quero sair com voc.
      As emoes de Cris haviam atingido seu ponto mximo, e ela as deixou explodir.
      - Quer sair comigo? Tem certeza? Quer que eu seja sua namorada? Porque se  o que voc quer, ento, esta sou eu de verdade. Tenho padres, regulamentos, restries 
e tudo o mais de que voc reclamou. Isto faz parte da minha vida, e se quer me namorar, leva o pacote inteiro, com regras e tudo o mais! No vou mudar por causa 
de voc nem de outro rapaz qualquer.
      Ela tremia toda, mas imitou o jeito dele de "duro", cruzando os braos e devolvendo-lhe o olhar firme.
      Rick descruzou os braos e enfiou as mos nos bolsos. Olhou para o cho e remexeu umas pedrinhas com os ps, parecendo se acalmar.
      Cris tambm se acalmou. Ela se surpreendeu com as palavras que haviam jorrado de sua boca, mas no se arrependia de nenhuma delas. Pela primeira vez em seu 
relacionamento com o Rick, sentiu que ele no estava mais no controle.
      - Eu tinha razo, disse ele meio sem jeito. Voc no  covarde. Eu no devia ter estourado daquele jeito. Me desculpe.
      - Me desculpe tambm., disse Cris automaticamente.
      No sabia bem por que estava se desculpando, pois no estava arrependida de nada do que dissera. Mas estava sentida por terem feito uma cena to dramtica.
      Rick abriu os braos, convidando-a a receber seu abrao. Ela o abraou com vontade. Enquanto ele a segurava, disse:
      - Quero sair com voc. Do jeito que voc . No quero que mude nunca. Voc  diferente, nica, "olhos de matar", e  assim que quero que voc seja sempre. 
Posso aprender a ajustar-me m pouco, e talvez voc tambm se adapte em algumas coisas.
      Eles ficaram abraados at se acalmarem e se restaurarem. Por fim, Cris levantou a cabea e perguntou:
      - Ainda quer ver um filme? Tem um que  censura livre.
      - O qu? Aquele desenho animado da Disney? Est brincando?
      - No. Estou falando srio. Vamos l;  vai ser divertido!
      Rick cedeu e voltou de brao no ombro dela at a bilheteria.
      - J imagino contar a meu irmo amanh na quadra de raquetball que levei minha namorada para assistir a um desenho animado.
      Aproximando-se do vidro, disse  moa da bilheteria:
      - D pra trocar esses dois ingressos de filme adulto por dois de filme infantil?
      Com os ingressos trocados na mo, Rick conduziu mais uma vez Cris at a porta. Ento, como quem quer certificar-se de que o receptor de ingressos soubesse 
quem estava no controle, Rick disse:
      - Estou falando srio, Cris. Se eu dormir neste filme, voc fica me devendo seis dlares.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Troca Justa? Nunca!
      12
      Rick deixou a Cris na porta de sua casa cinco minutos antes das dez e disse pela quinta vez que o filme fora "uma gracinha".
      - Eu chego por volta de 1:30 amanh,  disse ele, ou quer que eu telefone antes?
      - Melhor ligar primeiro s pra ter certeza de que est bem voc vir almoar. Que  que voc quer fazer amanh?
      - Vou olhar a lista, disse ele, agarrando-a pelos ombros e beijando-a rpida, porm firmemente, nos lbios. Melhor voc entrar antes que o relgio bata as 
dez e voc acabe virando uma abbora por mais duas semanas.
      - Boa noite, Rick, disse ela vendo-o afastar-se na direo do carro. A gente se v amanh.
      - Divertiu-se muito? perguntou a me de Cris ao v-la entrar.
      - Sim, respondeu Cris sem querer entrar em detalhes do dia complicado ou comear a responder perguntas sobre o significado da pulseira prata no seu brao. 
Ainda estou com areia da praia no cabelo. Vou tomar um banho.
      Quando Cris lavava os cabelos, a pulseira emaranhou-se neles. Ela acabou arrancando um tufo de cabelo. Isso nunca acontecera com a pulseira do Ted.
      Pensar na pulseira do Ted fez com que ela indagasse onde poderia t-la colocado. A ltima vez que a vira foi quando o Rick a tirou no restaurante, e ela havia 
guardado na bolsa preta.
      Depois do banho, tirou a bolsa da gaveta, derramando o contedo sobre a cama. Batom, rmel, leno de papel, uma moeda de vinte e cinco centavos e uma caneta. 
Nada de pulseira. Ela remexeu o fundo do tecido para verificar se no tinha ficado presa ali. Ainda no encontrara a pulseira.
      Tirou a lata decorativa de cima da cmoda e esvaziou as ptalas secas dos cravos do primeiro buqu que o Ted lhe havia dado, lembrando que uma vez pusera o 
bracelete ali. No estava l.
      O que ser que eu fiz com ela? Coloquei na bolsa, depois esqueci a bolsa no carro do Rick e ele me devolveu na noite seguinte. Ser que caiu no carro dele?
      Cris remexeu o fecho da bolsa vrias vezes. Estava firme. Ela no se abriria sozinha.
      Estava comeando a ficar apavorada. Enfiando os cravos secos na lata, fechou a tampa de plstico e a recolocou em cima da cmoda.
      A lata esbarrou no vaso de cermica azul, derrubando-o. Bateu na beira da escrivaninha e caiu no cho, onde se transformou em cacos.
      Ah no! O vaso do Rick! Como  que eu vou lhe dizer que o quebrei?
      Juntou os cacos, pensando se daria para colar. As rosas tinham secado uma semana atrs e Cris as havia jogado no lixo, sem pensar em guard-las como guardara 
os cravos do Ted.
      Ted, Rick, cravos, rosas, vasos quebrados, pulseiras perdidas - tudo igual aos cacos do vaso que ela tentou juntar no cho.
      Desistindo de reunir os pedaos, Cris jogou tudo no lixo. Enfiou-se debaixo das cobertas, abraando seu ursinho Puf, que o Ted lhe dera no seu aniversrio 
de quinze anos, na Disneylndia.
      Aquela foi a noite em que ela se preparou para o primeiro beijo, quando o Ted a levou at a porta de casa, mas no a beijou. Beijou-a no dia em que lhe deu 
o buqu de cravos, quando ela estava indo para o aeroporto, para regressar a Wisconsin. Ted a beijara no meio da rua, na frente de um monte de gente. E ela no se 
sentira mal com o beijo dele, nem presa como se ele quisesse domin-la com seu "magnetismo".
      Permaneceu mais de uma hora acordada com o Puf nos braos, pensando, comparando as diferenas entre Ted e Rick. Por tanto tempo desejara que o Ted fosse seu 
namorado, como o Rick estava sendo agora. Mas o Ted nunca a prenderia, nem a pressionaria, nem diria coisas do jeito que o Rick fazia.
      Agora ela tinha o que tanto esperara: um namorado. Rick gostava tanto dela que at mesmo assistira a um filme do Walt Disney com ela. Ele a abraara e beijara, 
dizendo coisas que faziam com que se sentisse linda. Rick fizera uma lista de atividades para seus encontros, comprara-lhe rosas e lhe dera uma pulseira.
      O Rick a queria em sua vida. O Ted havia ido embora. Verdade, com o Rick havia altos e baixos, mas estavam se esforando para que o relacionamento desse certo 
e era isso que importava. As coisas iam melhorar. Ou no?
      Ainda que tivesse terminado o relacionamento com o Ted, ela estava preocupada por no ter encontrado a pulseira. No sabia explicar por que, mas aquela jia 
significava mais do que a que o Rick lhe dera. Tinha de encontr-la.
      Talvez tivesse cado no cho do carro do Rick. Talvez o Rick a tivesse guardado e no lhe dissera nada. Resolveu que no dia seguinte lhe perguntaria.
      Os pais de Cris concordaram em receb-lo para almoar, e sua me manteve a refeio no forno, esperando seu telefonema.
      Finalmente, ele telefonou s duas, dizendo que o jogo de racquetball estava atrasado. Sugeriu que fossem almoando porque ainda teria de tomar banho e demoraria 
mais uns quarenta e cinco minutos.
      A famlia comeou a comer em silncio o frango ressecado e o pur de batata frio. O pai foi ler o jornal de domingo e tirar sua soneca costumeira no sof. 
Cris lavou a loua e foi l fora esperar o Rick. Ela no queria que ele subisse a escada correndo e acordasse seu pai.
      A pulseira do Rick estava no bolso de seu jeans cortado. No tinha usado o dia todo porque ainda no estava preparada para as perguntas que seus pais ou o 
pessoal da igreja fariam.
      Esperou com pacincia no topo da escada da varanda. O outono estava realmente chegando. O jasmim que florescia  noite na trelia, acima de sua cabea, tinha 
murchado, e, onde antes havia flores, restavam apenas minsculos galhos retorcidos. Escutou o barulho do Mustang do Rick antes de v-lo virar a esquina da sua rua 
silenciosa. Desceu correndo at a rua para encontr-lo.
      - Ol! disse com alvoroo, olhando pelo vidro aberto do carro. Quem ganhou?
      - E precisa pergunta? Eu,  claro. E meu irmo ficou com uma raiva! Ele  trs anos mais velho que eu, e fazem seis meses que no consegue ganhar de mim em 
nada.
      - Eu acredito nisso. Meu pai est dormindo, e acho que minha me est costurando. Quer que eu veja se podemos sair para algum lugar?
      - Claro, vamos para a minha casa. Ei! Cad a minha pulseira?
      - No meu bolso. Volto j.
      Correu para dentro de casa, pegou uma malha e perguntou a sua me se podia ir para a casa do Rick.
      - Desde que esteja de volta antes das seis. E voc tem algum dever de casa que precisa terminar?
      Ela esquecera a montanha de estudos que ainda tinha de fazer.
      - Alguma coisa, disse com cautela. Termino quando voltar. Tchau.
      Saiu depressa, antes que a me tivesse tempo de dizer mais alguma coisa.
      Uma vez no carro com o Rick, amarrou a malha no pescoo, e, tirando a pulseira do bolso, explicou que tinha se embaraado no seu cabelo na noite anterior. 
Ainda havia fios enrolados no fecho.
      - Me d aqui. Eu ponho em voc. Tem de tomar mais cuidado quando for lavar o cabelo.
      Rick apertou o fecho e ligou o carro. Haviam percorrido uns trs quarteires, em direo  parte mais luxuosa da cidade, onde o Rick morava, quando Cris resolveu 
perguntar se ele havia encontrado a pulseira do Ted.
      - Rick, quero lhe perguntar uma coisa, comeou ela com cuidado.
      A ltima coisa que desejava era deix-lo zangado porque ela ia falar do Ted.
      - timo, porque eu tambm queria lhe perguntar uma coisa, disse Rick, entrando com o carro num estacionamento de um centro mdico.
      Desligou o motor e colocou os braos em sua volta, dando-lhe um beijo bem devagar e terno. Afastando-se perguntou:
      - Que tal esse como "beijo leve"? Estou melhorando, no estou?
      - Rick, disse Cris, falando depressa, antes que suas emoes a embaraassem. Lembra a noite em que ns fomos quele restaurante italiano?
      - Voc estava maravilhosa, disse ele. Adorei ver voc naquele vestido preto!
      - Rick, pare um pouco! Deixe que eu pergunte a acabe com isso. Aquela noite voc tirou minha pulseira de ouro, e eu a coloquei na bolsa. Deixei a bolsa no 
seu carro, e voc me devolveu na noite seguinte quando me levou pra casa.
      Rick encostou-se na porta.
      - Sim. E da? Indagou, parecendo estar na defensiva.
      - Ser que voc no viu minha pulseira? Pensei que tivesse cado no cho do seu carro ou algo assim. Voc a viu?
      - Voc no precisa mais dela.
      - Mas detesto no saber onde ela est. Eu me sentiria muito mal se a perdesse.
      - Por qu? Por que voc iria querer saber o paradeiro daquela pulseira?
      - Porque  uma jia valiosa, e no gosto de perder coisas de valor.
      - Calma a! disse Rick, abraando-a novamente. No precisa ficar nervosa por causa de uma coisa to insignificante, falou ele baixinho ao seu ouvido. Voc 
agora  a minha namorada. No precisa se preocupar mais com aquele traste. Voc tem a mim.
      A ira de Cris chamejou. Ted podia ser muita coisa, mas no era um traste.  verdade que ela j o tinha xingado mentalmente, e essa palavra fora uma que pensara. 
Mas isso era diferente. Ela podia cham-lo de traste; o Rick, no.
      - Foi uma boa troca, no acha? Eu no lugar do "cachorrinho ao luar". Minha pulseira em lugar da pulseira dele.
      A ltima frase se jogou na mente de Cris como as notas amargas de um rgo num filme de monstro. Minha pulseira pela dele. Agarrando os ombros largos do Rick, 
Cris olhou firme nos seus olhos e exigiu:
      - Me diga a verdade, Rick Doyle. Voc tirou a pulseira da bolsa?
      Rick deu um sorriso tranquilo e disse com calma:
      - Vamos l, Cris, relaxe. Voc no precisa mais daquele traste. Voc agora tem a minha pulseira.
      - Voc mexeu! gritou ela no rosto dele. Voc tirou a pulseira! No tinha o direito de faz-lo. No pode mexer na bolsa de uma garota e tirar aquilo que no 
 seu. Foi muito atrevimento! Onde  que est? Quero de volta agora mesmo, messe instante!
      Rick parecia chocado com a exploso dela; a ele abriu fogo.
      - Sabe qual  o seu problema? Voc no tem maturidade para um namoro de verdade! Voc quer guardar todos os badulaques da infncia e estragar um relacionamento 
perfeito.
      - Onde est a minha pulseira, Rick? insistiu ela num tom de voz que parecia um rosnado baixo.
      Ele virou o rosto para fora e desviou o olhar.
      - Cad a minha pulseira, Rick?
      - Voc est me deixando zangado, Cris.
      Ela repetiu as palavras destacando bem as slabas:
      - Onde est minha pulseira, Rick?
      - No estou com ela, est bem? Gritou aprumando-se no lugar e apontando o dedo para ela. Resolva aqui e agora. Quem voc quer? Eu ou aquele traste de surfista? 
Voc resolve agora, e  isso a! Quem vai ser? Me diga!
      Cris nunca o vira to zangado, e isso a deixou meio apavorada. Agiu sob impulso. Abriu a porta do carro e saiu correndo.
      - Muito bem. Pode fugir! S que desta vez, Cristina Miller, no vou correr atrs de voc!
      Ouvindo-o ligar o carro, ela correu por entre os prdios para que ele no a seguisse na calada. Parou num banco no complexo de consultrios deserto e recuperou 
o flego. Vendo pelo ronco do seu carro que ele j se fora, ela  se ps a caminhar de volta para casa.
      No acredito que isto esteja acontecendo! Ser que fiz o que estava certo, descendo do carro? Ele est to zangado que provavelmente vai ficar uma semana sem 
falar comigo. E se ele telefonar? O que  que eu vou dizer? No posso evitar! Ainda estou zangada por ele ter levado a pulseira do Ted.
      Quando chegou na frente do complexo de consultrios, l estava o Rick, encostado no carro estacionado.
      - Isso  uma loucura! Por que estamos fazendo isto? Venha, entre no carro. Vamos conversar e resolver as coisas, disse ele com voz calma e persuasiva.
      Cris ficou parada, olhando para os ps. No queria entrar no carro. Estava abalada demais para deix-lo pr panos quentes na situao.
      Sem olhar para ele, repetiu sua pergunta:
      - Onde est a minha pulseira, Rick?
      - Voc sabe, disse ele em voz quebrantada. Pensei que estivesse fazendo o melhor para ns. Verdade!
      Ele parecia prestes a chorar.
      Cris relutou por no saber se deveria manter distncia ou aproximar-se dele para confort-lo. Ficou a alguns metros, mas falou com ternura:
      - O que foi que voc fez, Rick?
      - Eu no queria que houvesse nada entre ns. No tinha idia de que aquela pulseira significasse tanto pra voc. Levei para a joalheria e troquei pela que 
eu te dei.
      - Voc trocou minha pulseira? sussurrou Cris, e em seguida, com palavras rspidas, comentou: Voc no tinha esse direito!
      - Eu sei. Agora eu sei disso. Na hora, achaava que era a melhor coisa para o nosso relacionamento. Me perdoe.
      Ela no sabia se ele estava realmente arrependido, ou s triste porque dera errado para ele.
      - Voc no precisa competir com todo mundo, Rick. No precisa ter cimes do Ted. Ele est a milhares de quilmetros daqui.
      - No, no est. Ele ainda est na sua cabea. J notei. Ele  um rival. Sempre foi.
      - No acredito! Estou namorando voc, e no o Ted. No entende o quanto tenho desejado estar com voc?
      - O que  que h com ele? Por que  to importante pra voc? Ele escreveu poesias de amor? Fez grandes promessas sobre o futuro?
      Cris no pde evitar de rir.
      - No, Rick! O Ted nunca me escreveu nem carta nem bilhete de nenhum tipo. E  uma pessoa que no fez nenhuma promessa pra mim, talvez seja a pessoa menos 
"prometedora" que eu conheo.
      - Ento o que  que h com ele? O que a atrais tanto?
      Cris teve de pensar um pouco. Rick estava certo, havia um elo forte entre ela e o Ted. Como explicar? Finalmente, disse:
      - Acho que  o Senhor. Acho que o que faz o Ted ser to especial  que ele ora comigo e...
      Rick a interrompeu:
      - Ns podemos orar.  isso que voc quer?
      Cris percebeu que, desde que conhecera o Rick e vinha saindo com ele, nunca oraram juntos, nem falaram de Deus ou de coisas espirituais.
      - Sim, eu gostaria que orssemos juntos. Mas no  s isso. ...
      Ao tentar encontrar as palavras para explicar como o Ted era especial, lembrou-se de como ele ficava falando de Deus. Era contente e vulnervel, e ao mesmo 
tempo vigoroso feito uma rocha. Era isso. Ted amava a Jesus mais do que a qualquer outra coisa. Como explicar isso ao Rick?
      - Venha c, falou Rick, estendendo-lhe a mo. Vamos orar juntos?
      Cris colocou sua mo na dele. Rick abaixou a cabea e fechou os olhos. Orou:
      - Santssimo Pai Celeste, ns nos aproximamos de ti pedindo fora e direo para o nosso relacionamento. Pedimos que nos outorgue a tua beno e nos ajude 
a resolver os nossos problemas. Amm.
      Ele levantou a cabea e olhou para ela como uma criana olha esperando aprovao. No era nada como quando o Ted orava. Nada no Rick era igual ao Ted. E, de 
repente, ela percebeu que nunca seria. Rick era Rick. Ser que ela queria ser mesmo a namorada dele?
      - Quer ir para a minha casa agora? Podemos fazer de conta que isso tudo nunca aconteceu, e comear de novo.
      - Na verdade, falou Cris, forando-se a dizer o que queria antes de perder a coragem, acho que devemos  terminar.
      Rick olhou-a como se ela tivesse contado uma piada sem graa.
      - Mas acabamos de orar. Eu lhe disse que estava arrependido quanto  pulseira, no disse? Por que terminar?
      - Porque acho que no estou preparada para ser sua namorada. No estou preparada pra namorar ningum. Quero voltar a ser apenas sua amiga. Ns nos dvamos 
muito melhor quando ramos amigos.
      Rick passava as mos pelo cabelo e parecia desesperado.
      - No entendo. Estou tentando fazer tudo certo. Nunca em minha vida me esforcei tanto com garota nenhuma. O que  que estou fazendo de errado?
      - No  voc. Sou eu. Voc j disse isso umas duas vezes, e  verdade: no estou preparada para um namoro srio. Quero ir mais devagar com tudo. De colega, 
de amigo, voc passou a ser, da noite para o dia, meu namorado, e tudo correu depressa demais. Acho que seria melhor ir devagar, construir o nosso relacionamento 
aos poucos.
      - Temos construdo devagar. Ou voc se esquece dos nove meses que esperei pra namorar voc?
      - Mas  exatamente isto. Pensei que voc estivesse esperando para sair comigo, no para ser meu dono. No estou preparada para namorar firme, com ningum. 
Preciso de mais tempo, e quero ter tempo pra passar com as amigas sem sentir que tenho de lhe pedir permisso.
      Cris pensou em outras coisas que tinha vontade de dizer, mas Rick parecia to arrasado, que era melhor parar por a. Estava na cara que ele entendera. Ela 
se surpreendeu por estar to calma e em paz depois de terminar o namoro, principalmente porque nada disso fora planejado de antemo.
      - Sabe, disse Rick, se afirmando em toda a sua altura, olhando Cris de cima para baixo. Esto acontecendo muitas coisas comigo, estou comeando a faculdade 
e tudo o mais. Acho que devemos ir mais devagar mesmo e dar um ao outro mais tempo para resolver as coisas na vida. No sei quando vou voltar para passar um final 
de semana aqui. Talvez no dia de Aes de Graas* se no for antes. Eu ligo pra voc. Talvez a gente possa se encontrar e ir conversar em algum lugar. O tempo nos 
dar uma chance de reavaliar nosso relacionamento.
      _________________
      *Importante feriado americano na quarta quinta-feira de novembro (N.da T.)
      
      Cris achou graa ao ver que ele assumia as rdeas da situao, dizendo palavras educadas como nas frases finais de um filme. Pelo jeito como ele reformulava 
tudo, parecia que era ele que estava terminando com ela.
      - Fico aguardando seu telefonema, replicou ela.
      Ele olhou-a como se achasse que ela estava apenas tentando agrad-lo.
      -  verdade! Vou aguardar com prazer. Temos ainda uma lista comprida de encontros que voc inventou, lembra? E eu gostaria de sair com voc. Uma coisa de cada 
vez, ao invs de tentar fazer tudo numa semana.
      Cris queria falar com calma e num tom positivo, pois suas emoes estavam comeando a tumultuar de novo, e ela sentia que uma tempestade estava prestes a desabar.
      - Acho que voc deve levar de volta a pulseira. Sempre serei sua amiga, Rick. Mas no posso ser sua namorada no momento. Quer me ajudar a tir-la?
      Rick mexeu no fecho e depois segurou a pulseira no punho fechado.
      - Vou guardar isso aqui, disse com carinho, porque ainda acho que voc deve us-la. Um dia vou coloc-la de volta a.
      Essa ltima declarao pareceu uma rajada de trovo, soltando a tempestade dentro de Cris. Abaixou a cabea. As lgrimas caam na calada.
      - Posso dar um abrao na minha amiga? Perguntou Rick.
      Cris fez que sim, sem levantar a cabea.
      Ele envolveu-a nos braos e deu-lhe um abrao de despedida.
      
      
      Duas Vezes
      13
      Na segunda-feira de manh, a vontade de Cris era ficar na cama e faltar  escola. No tocara nos deveres no fim de semana, e estava emocionalmente exausta. 
Como convencer a me de que estava doente e precisava ficar em casa?
      Margaret sacou logo a inteno da filha e lhe deu vinte minutos para se vestir e "cascar fora".
      Cris vestiu uma blusa de frio e jeans, e puxou o cabelo para trs numa trana. Este realmente no seria um dos seus melhores dias.
      Passou pelas duas primeiras aulas pedindo prorrogao do prazo para entrega das tarefas. Na terceira, no teve a mesma sorte.
      - Hoje, turma, disse a professora de Literatura, vamos comear a leitura da poesia vitoriana que vocs selecionaram. Cris Miller far a primeira leitura.
      - Deixei o meu livro no armrio, respondeu Cris, procurando esquivar-se.
      - Isso significa meio ponto a menos. V buscar seu livro. Vamos ver se consegue uma nota pelo menos sofrvel. Enquanto a Cris busca o livro, algum mais precisa 
pegar material no armrio?
      Quando ela voltou para a sala, outra menina estava lendo, tropeando na linguagem antiquada.
      Cris mal encontrara a pgina, quando a professora a chamou  frente para fazer a leitura. Ela queria ter tido a oportunidade de ao menos correr os olhos na 
poesia, sobretudo num dia em que se sentia to mal.
- "Duas Vezes", de Christina Rossetti, comeou Cris a ler :

      Levei meu corao na mo
      (Oh! meu amor. Oh! meu amor.)
      Eu disse: caia ou fique em p,
      Viva eu ou morra eu,
      Mais uma vez, esta vez s, ouve o que eu digo -
      (Oh! meu amor. Oh! meu amor.)
      Contudo as palavras de uma mulher so frgeis,
      Tu  que devias falar, no eu.
      Tomaste meu corao em tua mo
      Com um sorriso de amigo,
      Com olho crtico o sondaste
      E depositaste no lugar.
      Disseste: ainda na amadureceu,
      Melhor aguardar algum tempo;
      Espera, enquanto os pssaros cantam,
      At o milho virar semente.
      Ao deix-lo, o corao partiu -
      Partiu mas no gemi;
      Sorri com tuas palavras,
      Com o juzo que de ti ouvi;
      Mas no tenho sorrido muito,
      Nem indagado muito desde ento,
      Nem visto as flores do campo,
      Nem com as aves tenho eu cantado.
      Tomo o corao na minha mo.
      Oh! meu Deus! Oh! meu Deus.
      Meu corao partido na minha mo
      Tudo vs, tudo tens julgado.
      Minha esperana fora escrita na areia,
      Oh! meu Deus! Oh! meu Deus.
      Agora, que teu juzo permanea -
      Sim, julga-me agora.
      Este corao condenado por um homem,
      Maculado um dia por desateno,
      Toma Tu este corao a sondar,
      Tanto dento como fora;
      Apura com o fogo o seu ouro,
      Purifica o seu refugo -
      Contudo segura-o em tua mo,
      De onde ningum poder arrebat-lo.
      Toma meu corao em minha mo -
      No morrerei, mas hei de viver -
      Perante a Tua face estou
      Pois chamaste os tais.
      Tudo o que tenho eu trago,
      Tudo que sou te entrego
      Sorri e eu cantarei,
      Sem muito de nada indagar.*
      
      
      ___________________
      *Extrado de The Complete Poems of Christina Rossetti. Vol.1, Lousiana State Univerity Press, 1979. Usado com permisso.
      
      Mais ou menos na quarta linha da leitura, Cris percebeu o quanto a poesia era semelhante ao que ela tinha passado com o Ted e o Rick durante o ltimo ms. 
Ela tinha escolhido a poesia porque fora escrita por uma mulher de nome Christina. Mas agora percebia que no foi acidental. Katie teria dito que era uma dessas 
"coisas de Deus".
      Com interesse autntico na poesia, Cristina leu com  intensidade de lgrimas, como se tivesse passado o final de semana ensaiando a leitura do texto. De certa 
forma, talvez tivesse feito isso mesmo.
      Quando terminou, a professora levantou-se e comeou a bater palmas, exclamando:
- Isso  o que eu chamo de leitura excepcional! Obrigada, Cristina, obrigada!
      Quando tocou o sinal, os alunos passaram para o corredor, Katie aproximou-se de Cris e perguntou:
      - Quando voc teve tempo de ensaiar a leitura? Pensei que tivesse passado o final de semana todo com o Rick.
      - No ensaiei. Vivi.
      Em linhas gerais, Cris contou a Katie o que acontecera no final de semana.
      - E ento, pode ficar feliz porque no estou mais namorando o Rick, j que voc no gostava muito de nos ver juntos.
      - No era bem isso. Eu s no queria v-lo partir o seu corao, s isso. Ainda bem que voc terminou com ele, em vez do contrrio. Tenho de admitir que isso 
foi bom. Eu no queria ver voc sair machucada.
      - Ento feche os olhos, porque estou machucada.
      Aps a aula, telefonou para a me perguntando se podia ir at o shopping pegar o seu pagamento, j que no tinha trabalhado no sbado.* Embora de fato quisesse 
o cheque, havia outra razo para Cris ir ao shopping. Entrou e foi direto  joalheria.
      _______________
      *Nos Estados Unidos, em geral, o pagamento do trabalhador  feito semanalmente. (N.da T.)
      
      - Em que posso ajud-la? perguntou um senhor idoso, calvo.
      - Espero que possa, disse Cris. Cerca de uma semana atrs um rapaz chamado Rick Doyle veio aqui e trocou uma pulseira de chapinha pequena, de ouro. Comprou 
uma de prata no lugar. Eu queria saber se o senhor ainda est com a pulseira de ouro a.
      - Vou verificar, disse o homem, desaparecendo ao fundo da loja.
      Quando voltou, tinha uma caixa comprida e fina na mo. Abrindo a caixa forrada de veludo, mostrou a pulseira e perguntou:
      -  est?
      - Sim! Incrvel que o senhor ainda a tenha aqui. Posso levar de volta? Quer dizer, posso comprar de volta?
      - Sem dvida poderemos arranjar isso, disse o homem, verificando o preo na etiqueta da corrente. Ser cento e quarenta e cinco dlares, mais o imposto.
      - Cento e quarenta e cinco dlares! No pode ser!
       -  uma pulseira de valor, senhorita.
      -  verdade! murmurou ela.
      - Aparentemente, foi feita  mo. Verificamos todos os nossos catlogos de fbrica, e esta no consta em nenhum. Isso dobra o preo. Alm do mais,  de ouro 
vinte e quatro quilates, no os quatorze que costumamos usar aqui.  uma pulseira especial, exclusiva.
      Cris procurou ser delicada.
      - Eu sei que , senhor. Essa pulseira  minha. O cara que eu mencionei tirou-a da minha bolsa e trouxe at aqui para o senhor sem eu saber. Ele me deu uma 
pulseira de prata no lugar, mas no  a mesma coisa.
      - Entendi. E voc j deu parte a polcia sobre esse roubo? Temos um procedimento que podemos seguir, se ainda no fez a queixa.
      Por um momento, Cris sentiu-se tentada a dar queixa de Rick.
      - No, no dei parte e acho que no quero. Simplesmente quero de volta minha pulseira.
      - Voc trouxe a de prata para fazer a troca?
      - No, no estou mais com ela.
      - E como quer pagar por esta? Cheque, dinheiro ou carto?
      Parecia que o homem sabia que ela no tinha nenhuma das trs opes.
      - Quero pagar a dinheiro, mas ainda no tenho a quantia toda.
      - Entendi, disse o lojista, fechando a caixa da pulseira.
      - Trabalho aqui no shopping, na loja de animais, e recebo o pagamento todo sbado. Posso dar uma entrada agora e todo sbado pagar uma prestao at quitar 
a dvida?
      Cris procurava parecer sincera a fim de que o homem entendesse que ela falava srio.
      - Podemos fazer um plano assim para voc. Precisamos de dez por cento hoje, e toda semana voc paga o que puder at terminar.
      - Est bem.
      Cris calculou mentalmente quanto seria dez por cento, esperando que tivesse o suficiente no pagamento.
      - Vou descontar o cheque, falou, e volto j.
      - Est certo. Guardo a pulseira para voc.
      O resto da semana passou devagar e sem novidades. O telefone no tocou. Seus pais fizeram poucas perguntas e Cris passou as tardes e as noites mergulhada nos 
livros. O corao e a mente lutavam sobre o Rick.
      Por que terminei com ele? Podamos ter acertado tudo. Todo casal tem problemas. Por que eu o afastei de mim? Estou s fugindo dele de novo, ou ser que fiz 
o que era certo?
      Claro que fiz o que era certo! Nosso relacionamento estava indo pela estrada errada, e quanto mais longe eu fosse, pior e mais difcil seria o caminho de volta.
      De volta para onde? Para o Ted?
       tudo uma piada cruel. Aqui estou eu, finalmente, em idade de namorar, e mandei embora da minha vida os nicos dois rapazes por quem j me interessei.
      O pior baque veio na quarta-feira, quando Rene, a lder de torcida que o Rick tinha mencionado durante o final de semana, foi at a Cris na hora do almoo, 
em companhia de duas amigas. Batendo no seu ombro disse:
      - Ento, mostre a prova.
      - Do que voc est falando? perguntou Cris.
      - , interferiu Katie, querendo defender a amiga.
      - Quero ver a sua prova. Rick disse que vocs dois estavam namorando e eu lhe disse que s acreditaria se visse. Ele me disse para procur-la essa semana, 
que voc daria a prova.
      Katie interferiu novamente, tentando proteger Cris.
      - No  da sua conta quem a Cris namora.
      - Voc no est namorando ele, est? Debochou Rene. O Rick est atrs de voc h tanto tempo, que vem tendo alucinaes com voc. Por que no fala para ele 
acordar e comear a namorar algum mais do tipo dele, eu, por exemplo?
      - O Rick  livre pra namorar quem ele quiser.
      - Ento voc no o est namorando, hein? Indagou Rene e, virando-se para as outras garotas, disse: Est vendo, eu no disse?
      - Bem, para sua informao, comeou Katie.
      - Katie...Cris tentou interromp-la, mas no adiantou.
      - Cris e Rick estavam namorando. A prova era uma pulseira bastante cara que ele lhe deu num dos seus muitos passeios em um restaurante caro, disse Katie, falando 
a todo vapor. Mas a Cris lhe devolveu a pulseira e terminou com ele porque viu que ele era um traste egosta!
      Katie! Queria tanto que voc calasse a boca!
      - Quer dizer que voc o teve na palma da mo? Voc tinha o Rick Doyle em seu poder, e o perdeu?
      - Foi uma deciso mtua, disse Cris baixinho.
      Um olhar de sabichona passou por Rene enquanto dizia:
      - No precisa me explicar. Voc o recupera. E olhe a, quem espera at os dezesseis anos para perder a virgindade,  melhor perder com um cara como o Rick...mesmo 
que depois ele a descarte depois de conseguir o que quer.
      Cris e Katie pularam de seus lugares na mesa como foguetes para enfrentar a Rene.
      - Eu no perdi a virgindade! disse Cris, com as palavras fumegando.
      - No que isso seja da sua conta, acrescentou Katie.
      Rene deu uma risada.
      - Quer dizer que voc no fez com o Rick? No acredito que  uma perdedora dessas! Qual o problema, Cris?
      -  voc quem est com problema, Rene, defendeu Katie.
      Ao que Cris disse com firmeza:
      - Eu vejo as coisas da seguinte forma, Rene: voc  a perdedora. Eu posso me tornar como voc a qualquer hora, no que eu queira. Mas voc no poder nunca 
mais voltar a ser virgem.
      Cris pensou que Rene fosse lhe dar um tapa. Um grupo de espectadores estava se juntando ao redor delas, fingindo nada ouvir, mas atento a tudo. Talvez fosse 
por causa deles que Rene deu de costas e se afastou com suas duas amigas guarda-costas.
      Katie e Cris sentaram-se de novo e trocaram olhares que diziam: "Voc acredita no que acaba de acontecer?" Se no tivesse outras pessoas olhando, Cris teria 
estendido a mo para Katie num "Toque aqui!"
      Quando chegou o final de semana, acabou sendo bom a Cris ter de trabalhar na sexta e no sbado. A rotina da loja de animais ajudou-a a manter-se ocupada para 
no pensar nos problemas.
      A loja ficou cheia no sbado todo. Cris vendeu vinte e cinco peixes tropicais para um s homem, que disse ter um aqurio de dois metros. No intervalo, foi 
at a joalheria pagar uma prestao da pulseira. Seu cheque foi muito pequeno, j que no trabalhara no sbado anterior.
      - S posso pagar doze dlares essa semana, Cris explicou ao vendedor. Terei a quantia normal na semana que vem. Espero que no se importe.
      - Est timo. Verifiquei com o Jon, e ele disse que voc  bastante confivel como funcionria.
      Cris sorriu agradecida.
      - Ento, depois desse pagamento, quanto mais estarei devendo?
      O homem rabiscou um pedao de papel.
      - Se continuar assim, ter pago tudo at o Dia de Aes de Graas.
      - timo, disse, lembrando que o Rick dissera que pretendia vir para casa nesse feriado.
      Talvez houvesse uma remota possibilidade de o Ted tambm vir passar o feriado ali.
      - Espero t-la de volta no meu brao at l.
      Quando terminou o trabalho, Cris passou pela biblioteca para devolver o livro de poesia. Na noite anterior ela copiara o poema "Duas Vezes" no seu dirio e 
lembrou de novo o que sentira naquela manh na praia quando ofereceu seu corao ao Ted e ele o ps de lado, dizendo que ainda no estava "maduro".
      Como ser que era a Christina que escreveu esta poesia? Quem ser o cara que partiu o corao dela?  esquisito que ela viveu h mais de um sculo, mas sentiu 
a mesma coisa que estou sentindo agora.
      Cris estava a algumas quadras da biblioteca, quando notou que estava dirigindo ao lado do parque onde o Rick a levara. J passava das seis e o lugar dos brinquedos 
estava vazio. Como que movida de sbito impulso, ela estacionou e foi andando pela areia at os balanos vazios.
      No comeo, apenas sentou-se num balano, tomando impulso aos poucos, desenhando crculos na areia com o tnis.
      Uma brisa suave de outono farfalhava a fronde das rvores, mandando um bando de folhas danando at os seus ps. As folhas, outrora verdes, estavam-se tornando 
amarelas, alaranjadas e vermelhas.
      "Estamos mudando, s isso. Ns dois estamos mudando." Recordou as palavras de Ted naquela manh, na praia, e pegou uma das folhas, examinando-a de perto.
      A rvore no est morta; apenas est se transformando. Haver novos ramos na primavera. Talvez as coisas vo ser assim para o Ted e pra mim.
      Cris soltou a folha. Um sopro de vento pegou-a e levou-a girando pelo ar at cair na relva.
      - Pai, orou, sussurrante. O Senhor sabe o quanto tenho pensado esta semana. Fico sempre chegando  mesma concluso. Preciso me apaixonar por ti. Quero saber 
se tu s o meu primeiro amor. Enquanto no sentir segura no meu amor por ti no estarei preparada para um namoro firme com qualquer rapaz. Quero te amar de todo 
o corao, de toda a alma, de toda a fora e mente. Quero amar a ti mais do que a qualquer outra coisa ou pessoa. O que diz naquela poesia? "Tudo que tenho eu trago, 
tudo o que sou te entrego, Senhor. Sorri, e eu cantarei, sem muito de nada indagar."
      Ao orar, Cris estava empurrando devagar as pernas para frente e para trs. Sem perceber, estava ganhando altura e balanando bem alto. Quando o balano foi 
para a frente, ela passou por um ponto onde o sol do fim da tarde, penetrando a folhagem, lanou um raio de luz dourada em seu rosto.
      Para cima, para baixo, para cima, para trs. Cada vez que subia, o sol brilhava mais em seu rosto.
      "O Senhor faa resplandecer o seu rosto sobre ti..." eram as palavras do Ted. Sua bno.
      E de forma surpreendente, ela estava-se realizando. Cris sentiu como se o rosto do Senhor estivesse brilhando sobre ela. E agora, pensando bem, Deus lhe dera 
a sua paz.
      Qual era a ltima parte da bno do Ted? Algo sobre amar o Senhor acima de tudo e de todos.
      Pela primeira vez naquela semana, um sorriso veio aos lbios de Cris. Ela balanava cada vez mais alto, at sentir o prazer empolgante do vento nos cabelos. 
Ento, retesando os ps e vergando o dorso para trs, no balano, que voava mais alto, Cris cantou uma cano espontnea de amor para o Senhor. Seu corao se encheu 
de amor e esperana.
      
      




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